Tomie – A peregrina das formas e das cores

Autor: Denise Diniz Maia

Palavras chave: artista, arquétipo do peregrino, processo criativo

    São Paulo abriga numerosos artistas estrangeiros que vão deixando cada qual à sua maneira, marcas pela cidade. Uma das características mais importantes de São Paulo é o seu aspecto multicultural, numa criação constante de novas expressões.

    No início do século XX São Paulo era a cidade mais moderna e industrializada do Brasil. Cidade cosmopolita que reunia mais condições de vinculação aos centros internacionais europeus.

    Os sinais de industrialização eram evidentes, havia um clima de reações ao conservadorismo, tanto nas artes como no próprio comportamento. A presença de imigrantes acentuava tudo isto, a agitação cultural crescia e surgia o modernismo nas artes.

   No final do século XIX, após a abolição da escravatura, começaram a chegar os imigrantes para trabalhar na lavoura. Na multiplicidade de seus espaços temos a oportunidade de conhecer as razões daqueles que chegaram de terras distantes e contribuíram para a formação da identidade paulista. Em 1998 Sayad Abdelmolek disse que a palavra imigração podia ser definida como uma dupla ausência:

Nos países de onde partem, os imigrantes são considerados fugitivos, naqueles em que são acolhidos, podem ser vistos como intrusos.

   Há a descoberta de um sentimento novo ao se sentir desenraizado e não ter ainda um lugar: O país de origem vai se tornando construção de sua imaginação – O país de destino desconhecido, lugar de possibilidades, de conquistas e realizações.

      A decisão de partir nem sempre tem como motivo principal uma revolta decorrente de uma frustração ou de um sofrimento; pode ser movida por um sonho, uma paixão, por aventuras…

      Esta decisão mobiliza nas pessoas todas as forças das várias esferas do sujeito. Antes de sair de sua terra natal, os imigrantes japoneses costumavam entoar este cântico:

“avante, companheiros, além mar

ao Brasil, terra prometida

Fazei brilhar a luz do Japão!

Ide com bravura hoje, na partida

À espera dos que hoje partem, carregando riqueza infinita,

conquistar fortuna desconhecida”

  Exige o indivíduo inteiro. Mobiliza pensamento, emoções, devaneios, mexe com o passado, presente e as possibilidades de um futuro.

  Da mesma forma, a chegada também mobiliza muitas coisas. Chegar e partir são momentos fundamentais e demarcadores de uma viagem.

      Como adentrar às imagens de um novo mundo com outra chave de cultura? Como traduzir a nova realidade na própria língua e sobretudo como apreendê-la na língua do outro?

     O estranhamento maior é aquele vivido no contato com o outro, sobretudo quando esse outro nos parece distante e diferente.

     É preciso refazer seu funcionamento e reacomodar seus conteúdos para incorporar o novo como citou Cardoso, sobre o viajante:

  “… As viagens muitas vezes são experiências de estranhamento. O viajante torna-se separado e distante de seu próprio universo, sentindo-se por vezes deslocado, podendo lhe provocar desarranjos internos.

       Ao mesmo tempo, observa-se não um mundo que se estreita, mas se abre, trazendo a ampliação do novo e desconhecido”

       A partir da imigração japonesa nas primeiras décadas do século XX amplia-se a pauta formadora da arte do país. Instaura-se uma nova etapa, acontecendo um processo de hibridização em que a cultura do Brasil encontra a cultura nipônica.

    A natureza universal da imagem possibilitou aos artistas se expressarem onde a linguagem verbal era impossível. Começaram a criar obras, tendo como base o seu contexto cotidiano:as paisagens de São Paulo.

    25 anos após a chegada dos primeiros japoneses, já nos anos 30, começaram as primeiras manifestações artísticas no seio da comunidade japonesa.

    A partir da década de 40 surgem grupos formados por imigrantes ou descendentes, como o Santa Helena, que era um local de encontro e de discussão de trabalhos.

    Houve nesta época o grupo Seibi que reunia a colônia japonesa, cujos membros eram ex-trabalhadores das lavouras de café.

    A marca registrada destes artistas era uma pintura que estabelecia o diálogo entre Oriente e Ocidente e alertavam que pintar não era apenas copiar mas fazer uma elaboração sensível da realidade.

   O artista com seu talento criativo e sua capacidade de produzir um novo alfabeto, procurava integrar os símbolos clássicos do Japão: delicadeza e traçados finos, com o visual exuberante em uma explosão cromática de cores.

   Este grupo, dissolvido em 1943 com a 2ª Guerra Mundial, ressurge em 1947 até 1970, acolhendo novos valores e entre eles, Tomie Ohtake, que começa a pintar em 1951, aos 38 anos de idade e continua até hoje, aos 96 anos .

  Tomie aos 23 anos, em 1936, desembarcou em um novo continente, onde tudo era diferente.

  Dizia ela:

 “Até a hora do sol era a hora da lua.”

   Ela nasceu em Kioto, Japão, em 1913, filha do 2º casamento de seu pai e do 2º casamento da sua mãe, anulado legalmente, por ela não ter tido filhos.

   Era a caçula de cinco filhos, todos homens e com uma ligação muito forte com o pai, embora ele nunca a tocasse, exceto ao pentear diariamente seu cabelo. A mãe de Tomie era uma pessoa bastante exigente, destinando a todos tarefas diárias.  Aos 5 anos ela viveu um conjunto de situações difíceis: ao estar acamada aos cuidados de uma enfermeira, não pôde participar do casamento de seu irmão mais velho, cuja celebração tornou-se um funeral pois seu pai durante a comemoração morreu subitamente.

  A mãe de Tomie durante um ano após o episódio permaneceu paralizada, sem conseguir mexer a cabeça.

   Aos 6 anos ela foi para a escola, e começou a expressar espontâneamente o gosto pela pintura. Adorava desenhar e com crayon ia fazendo em seus cadernos rabiscos e perfis.

   Não gostava muito de estudar e foi proibida de pintar, mas foi introduzida nas artes tradicionais para moças: a cerimônia do chá e Ikebanas.

  À medida em que crescia, Tomie desejava estudar para ser pintora o que não foi permitido porque ela era criada dentro dos costumes japoneses que estabeleciam que a mulher era preparada para ser mãe e dona de casa.

  Um de seus irmãos, o que menos se adaptava às regras impostas resolveu sair do Japão. Ouvia propagandas sobre o Brasil, país de fartura e bom clima, com pessoas menos rígidas e assim decidiu imigrar.

   Depois de algum tempo no Brasil, trabalhando como motorista de táxi recebeu Tomie e outro irmão que vieram em férias. Para ela, iniciou-se uma grande aventura em mares e terras nunca vistos e que provocou uma mudança de rumo em sua vida.

“Na busca de um maior entendimento de si mesmo o homem descobriu novos caminhos que o levam para sua interioridade.

 Enquanto viajante nesta empreitada transforma seu mundo interior em um novo lugar de experiências.”

Tomie se casou um ano depois que chegou e teve dois filhos.

 Ela descreve sua chegada ao Brasil, com a mesma intensidade de cores que expressa em suas telas: as paisagens quando saiu do Japão não tinham cor eram só tons de cinza.

Quando cheguei ao Brasil, sentia a atmosfera amarela e o arroz brasileiro era levemente avermelhado. Durante anos Tomie cuidava da casa e de seus filhos, até que hospedou um pintor japonês, que sugeriu que ela pintasse.

Assim, começou Tomie a pintar; fazia casas, paisagens, vasos de flores – coisas que via e vivia – e pendurava tudo nas paredes.

Já a princípio, características que existem até hoje, estavam presentes em suas telas: simplicidade, imaginação pura de uma criança, harmonia, equilíbrio e leveza.

 Seu jeito de ser e olhar o mundo eram expressos em suas telas. Assim começou a fazer experiências de formas e cores.

 A sua raiz no Japão traz as cores suaves e esmaecidas, que vão ficando coloridas com as tintas mais fortes e intensas do Brasil. E assim vai colorindo seu mundo…

 Diz Tomie:

  “Minha pintura é ocidental embora tenha na sua raiz minha origem oriental.” Há nela uma forma simples e profunda – como no Haikai japonês que expressa em poucas palavras, o mundo.”

    É muito importante na pintura de Tomie a integração e uma constante busca do ponto comum entre geometria e informalismo.

   Além das cores, o gesto circular e a linha são elementos importantíssimos na sua linguagem.

   Suas primeiras pinturas eram figurativas, feitas a partir da observação da paisagem que a circundava. Criava obras construídas por pequenas formas irregulares e justapostas. Havia um campo de cores sóbrias, estabelecendo um diálogo total entre elas.

  Primeiro vieram tímidas as paisagens que depois, mergulhadas em tons de cinzas, brancos e pretos se transformavam em algumas formas que iam se tornando cada vez mais arrojadas.  

Articulava elementos simples em delicadas superposições de cores, que se expressavam em imagens e desobedeciam qualquer temática. É lírico, poético e quase lúdico, espalhando-se na tela.

  Tomie é autônoma e silenciosa. Olívio Tavares de Araújo, crítico de arte, resume o que representa a sua obra.

 “A imagem é límpida e forte, permitindo uma direta e intensa fruição, sem comentários ou palavras.”

  Do Oriente, onde a arte abstrata e a figurativa estão em harmonia, traz Tomie à liberdade com relação à figura, enveredando depois para o abstracionismo. Ela acrescenta aos seus valores de origem um ritmo dinâmico e quente que extraiu de seu novo país.

   A forma na sua pintura é precisa e ao mesmo tempo, livre e suave, sendo ainda mais importantes os gestos do que a cor e a ocupação do espaço, do que a forma.

  A partir da década de 60 as nebulosas superfícies brancas e cinzas foram dando espaço a misteriosas formas coloridas que permaneciam flutuando no espaço. Há espaços em expansão de cores preta, cinza e branco, além de transparências que dão a impressão de movimento.

 Começam a surgir em suas telas, cores de tons claros e recortes de formas circulares e há ainda, um forte contraste na relação figura/fundo.

  A ênfase dos gestos já não é mais tão importante. Cada vez mais a luz ilumina formas bem delineadas, primeiro retangulares, depois circulares.  

  Assim passa Tomie de uma fase cujas formas de figuras geométricas são mais importantes, para outra cujos limites são menos intensos e há um maior aproveitamento da superfície e extensão da tela, com cores.

 O pincel toca a tela e percorre ordenadamente toda a superfície. A consciência da pincelada na pintura tem relação com a caligrafia japonesa – em seu método de pintar traz algo do teatro oriental com sua disciplina e lentidão de gestos.

 Na década de 70, de intensa experimentação, o grafismo cede espaço à mancha que se consolida em massas compactas e quase planas.

Toda a obra de Tomie tem um percurso que pode ser entendido como uma longa tentativa de submeter espaços pelas formas e cores e em meados da década de 70, vão surgindo novos elementos: curvas e arcos. Surgem pinturas com campos de cores definidos, intensa luminosidade e predomínio das cores primárias.

 A superfície quase esconde os movimentos do pincel. Das telas parece vir um profundo silêncio.

  Os exercícios com textura e relevo que aconteciam a partir de muitas camadas de tinta passaram a trazer uma tintura lisa para as telas, justapondo meios- tons e degradês com um toque suave, propondo um lirismo autêntico às suas telas.

   Tomie diz que esta fase, onde as curvas começam a dominar suas telas, é sua fase de formas orgânicas.

  Na década de 70 começa a se expressar em outras linguagens: gravuras, serigrafias, depois litogravuras com formas bem definidas e homogeneidade na cor, tendendo ao monocromático.

  Para Tomie a gravura é uma maneira mais social de se divulgar a arte.

  No final da década de 80, começam também a surgir as gravuras em metal.

  Utiliza bastão de carvão com pincel largo, molhado de tintas correndo a superfície e criando formas nas telas: o binômio linha/mancha é muito importante! A linha é espaço, define o território a ser ocupado, concentra e delimita, enquanto a mancha é o tempo. Ela expande e dispersa, introduzindo o vago e o impreciso.

  Na década de 90, Tomie passa da gravura para a matriz em cobre, começando a produzir esculturas. Vai acontecendo uma redução no uso dos recursos pictóricos, inclusive no uso das cores. Tomie passa do óleo à tinta acrílica. As linhas são mais simples, as pinturas se tornam mais soltas; há exacerbação nas formas orgânicas em largas pinceladas ou manchas.

  O espaço se expande, as cores se esparramam. A sombra ganha lugar.

  Sua obra vai se distanciando da realidade e caminhando para a abstração.

  Tomie vai colocando entre placas de vidros, gravuras impressas que recortava e que através da luz e da sombra, davam a impressão de serem tridimensionais.

 O desenvolvimento da trajetória da artista caracteriza-se pela busca da essência da arte, uma obra com poucos elementos, que quer dizer muitas coisas.

   As formas vão transmitindo quietude e densidade. Há formas e manchas “siderais”, sem contorno, que quase se misturam ao fundo.

  Em torno da metade da década de 90 as esculturas e obras públicas com suas torções e dobras, tornam-se presentes.

  Diz a artista:

“Este quase cai, não cai… É esta tensão que procuro na escultura”

“Cada transformação que eu faço é o resultado daquilo que chamam de crise, ou seja, a necessidade de renovação”

  Tomie gosta de experimentar novas técnicas e em seu atelier resolveu, certa vez, fechar os olhos e pintar sem olhar para ver o que surgia. Em seu processo de pintura, muitas vezes faz primeiro um projeto para depois pintá-lo na tela. Ora surgem alterações espontâneas, ora uma repetição minuciosa do projeto.

  Nos últimos anos houve uma alteração radical: as pinceladas se tornaram gestos pequenos e agitados espalhando-se em inúmeros e revoltos movimentos.

  A partir do final da década de 90 a pintura de Tomie vai se direcionando para as profundezas da alma: há a criação de formas incomuns e misteriosas, numa mistura de ordem e caos.

  Ao longo de meio século de trabalho e uma produção intensa, Tomie criou um riquíssimo vocabulário de formas.

  Na fase atual ressurgem as manchas esbranquiçadas e difusas, com grande nebulosidade. É sua fase cósmica, onde parece acontecer uma antecipação do espaço sideral em suas telas.

 SegundoTomie, há um desejo de simplificar cada vez mais e ficar na essência, numa busca de profundidade e transparência. Assim, a sua obra responde a desafios de um espaço novo que propõe encontros com a dimensão espiritual e diálogos de culturas.

  Numa exposição recente, em fevereiro de 2009, suas telas estão muito mais claras. As imagens estão fluidas em sua forma, parecendo flutuar num fundo profundo e infinito.

  Podemos falar do arquétipo do peregrino que parte levando suas raízes e a sua história. Chega na nova terra e ao longo dos anos transforma seu olhar e traz também para esta terra novas possibilidades.

  Tomie é precursora de um processo de cunho abstrato na modernidade da pintura brasileira. É a mulher que veio do outro lado do mundo, para olhar as cores do céu.

 “A alma ficou inquieta no seu peito… visões e vozes o dominavam… era o momento de partir. Encantava-se com a liberdade, o agitar do vento, a onda revolta. Outras vezes vinha a angústia e o enjôo do mar – mas em toda parte era o escolhido. O peregrino em sua vocação”  (Dinesen)

Encontros e despedidas

Milton Nascimento

“Coisa que gosto é poder partir sem ter planos

melhor ainda é poder voltar quando quero

Todos os dias é uma vai e vem a vida se repete na estação

Tem gente que chega pra ficar

Tem gente que vai pra nunca mais

Tem gente que vem e quer voltar

Tem gente que vai querer ficar

Tem gente que veio só olhar

Tem gente a sorrir e a chorar

E assim chegar e partir

São os dois lados da mesma viagem”

 

                             Bibliografia

  – Almeida Miguel – Tomie Ohtake, Lazuli, São Paulo, 2006

  – Cardoso Sérgio e outros – “O olhar dos viajantes” em O Olhar, São Paulo,

    Scharcs LTDA, 1988

 - Dinesen, Isak – “Tempestades” em a festa de Babette, Rio de Janeiro,

   Record, 1986

- Hashimoto Francisco – Cem anos da Imigração Japonesa, São Paulo, Editora

  Unesp, 2008

- Miranda Ana – Tomie: cerejeiras na noite, São Paulo, Cia. das Letrinhas, 2006

- Mendonça, Casimiro – Tomie Ohtake, São Paulo, Exlibus, 1983

- Moura Soraya – Memorial do Imigrante, São Paulo, Imprensa Oficial, 2008

- Ohtake Ricardo (org) – Tomie Ohtake, São Paulo, Instituto Tomie Ohtake,

  2001

- Santos Lígia – Tomie Ohtake, São Paulo, Moderna, 1998

- Santa Rosa, Nereide – História de São Paulo através da arte, Rio de Janeiro,

  Pinakotheke, 2004

                             Exposições

   – “Tomie Gráfica” – Instituto Tomie Ohtake – 2006

  – Tomie Ohtake na Visão de Miguel Chaia” – Instituto Tomie Ohtake – 2004

  – Tomie Ohtake – Exposição Retrospectiva” – Centro Cultural Banco do Brasil -

    2001

  – “A forma circular em Tomie Ohtake” – Instituto Tomie Ohtake, 2005/2006

  – “Tomie Ohtake” – Galeria Nararoesler, 2008/2009

                            Entrevistas                           

       Todas em janeiro de 2009

  Diário do comércio 20/ 01/09

  Diário de São Paulo 16/0109

  Revista Serafina – Folha de São Paulo 25/01/09

A autora, Denise Diniz Maia, é psicóloga, analista didata  do Instituto Junguiano de São Paulo-IJUSP, filiado a Associação Junguiana do Brasil-AJB que é  filiada da International Association for Analytycal Psychology-IAAP.