Testemunho de uma leitora de A Carta ao pai, de Franz Kafka

Autor: Paula Perrone

Introdução: O exercício da escuta

Proponho-me fazer uma escuta clínica da Carta, uma escuta perspectivista, do mesmo modo como escuto um paciente na clínica, privilegiando partes do que ele diz, atribuindo sentidos ao que me soa importante, traduzindo sua fala para o universo analítico. Inspiro-me em Thomas Ogden quando discute o ato de ler, em seu livro Os sujeitos da psicanálise:

Ler não é uma simples questão de examinar, ponderar ou até por à prova as idéias e experiências apresentadas pelo escritor. Ler implica uma forma de encontro muito mais íntima. … Um terceiro sujeito é criado na experiência de ler. Sujeito este não redutível ao escritor nem ao leitor. (1996, p. 1-2)

Mesmo tendo sido escrita para um leitor específico, a Carta ao pai, como todo texto escrito para ser lido, participa do processo descrito por Ogden. A experiência da leitura promove um encontro entre a subjetividade do escritor e a do leitor. No confronto entre as duas subjetividades configura-se uma relação intersubjetiva que permite a criação de um terceiro elemento transcendente a ambos, fruto do encontro. A leitura, tomada nesta dimensão, pode ser considerada uma escuta, enquanto a escrita tem o lugar da fala.

Quando a leitura é feita com a sensibilidade analítica, nos transformamos sob a égide do terceiro analítico. É isto que a experiência da Carta pode propiciar. Sou testemunha disso.

Subjetividade e destino

A ao pai, de Franz Kafka, escrita em 1919, pode ser lida também como um documento de subjetividade. Ao mergulharmos nela, penetramos o universo da fantasia do autor. Estas reflexões não pretendem questioná-la ou duvidar dela mas, contrariamente, tomá-la como ponto de partida e, se possível, iluminá-la a partir de um determinado olhar.

Modesto Carone é partidário da posição de que fatos reais desencadeiam e justificam a elaboração da Carta: as atitudes de forte oposição do pai ao pretenso casamento do filho com a filha do zelador de uma sinagoga e todo o conflito interno gerado no filho a partir daí. O malogro do projeto de casamento aparece totalmente emaranhado à relação do pai com os filhos, considerada pelo próprio Kafka, ao final da Carta, como o seu tema.

Escrita em tom confessional a Carta ao pai pode ser considerada um testemunho da subjetividade do autor. No mesmo sentido Marie-Louise von Franz considera que a escuta da biografia permite compreender toda vida subjetiva do indivíduo:

… os acontecimentos biográficos efetivos de uma vida possuem uma estranha unidade simbólica com os acontecimentos interiores. … Essa é uma verdade banal e explica por que se escrevem tantos livros sobre a conexão entre caráter e destino, pois o destino de um ser humano está, com muita freqüência e de modo muito estranho, ligado à constituição psicológica, e responde pelo provérbio segundo o qual cada homem é o seu próprio destino, ou carrega na alma o seu próprio destino. (1979, p. 149)

O que parece movê-lo a escrever ao pai é a possibilidade de revelar seus sentimentos de filho, o modo como experimentou esse vínculo e como se vê produto dele. A disposição de mostrar uma parte extensa e profunda de sua interioridade é uma decisão de grande coragem, ainda mais quando isso evoca experiências difíceis, negativas; um movimento que demanda entrar em contato com as próprias entranhas. Kafka não pretendeu que a parte desconhecida de sua obra, incluindo a Carta, fosse publicada; ao contrário, no final da vida pediu que tudo fosse fisicamente destruído – queimado.

A situação familiar de Kafka mostra-o como um irmão entre três irmãs, sendo ele o primogênito. A irmã Elli (Gabriele) nasceu logo que ele completou seis anos, poucos dias depois de ele começar a freqüentar a escola. Segundo seu biógrafo Ernst Pawel, a experiência escolar nunca foi positiva mas aterrorizadora, no contexto do sistema educacional vigente no Império Austro-Húngaro desde o final do século XVIII que visava à homogeneização cultural das numerosas nacionalidades. Embora tendo conseguido vencer os desafios escolares com destaque, fazer amigos e ser benquisto pelos professores, Kafka travou uma luta constante para adaptar-se e sair-se bem, o que parece tê-lo esgotado a ponto de se referir aos anos escolares como de tédio e medo, onde os professores estavam ali para julgá-lo.

A segunda irmã , Valli (Valerie), nasceu um ano depois de Elli, e a terceira irmã, Ottla (Ottilie), dois anos mais tarde, quando ele tinha nove anos.

O medo, o inseto e o gigante

Se a relação do pai com os filhos é o tema da Carta, o medo é o primeiro sub-tema nela aludido por Kafka (1997).

Com um sentimento de tal gravidade e extensão ele abre a confissão e se coloca numa posição de incompetência e inibição para lidar com essa questão diante do pai. E com o sentimento de inferioridade ele praticamente fecha a Carta, quando apresenta o contraste entre a imagem que tem do pai e a que, acredita, o pai tem dele. Para fazê-lo, constrói uma imagem espetacular do pai e uma insignificante de si.

Às vezes imagino um mapa-múndi aberto e você estendido transversalmente sobre ele. Para mim, então, é como se entrassem em considerações apenas as regiões que você não cobre ou que não estão ao seu alcance. De acordo com a imagem que tenho do seu tamanho essas regiões não são muitas nem muito consoladoras e o casamento não está entre elas.” (p. 68) [grifo meu]

O agigantamento do pai, que tanto oprimiu Kafka, a partir da teoria de Jung pode ser sugerido como a impossibilidade de diferenciação, por parte dele criança e ao longo de sua vida, entre o pai pessoal e o pai arquetípico. Nessa visão do pai, ele Kafka teria projetado sobre o pai pessoal conteúdos arquetípicos. Quaisquer que sejam as fantasias que tenham sido engendradas na fase inicial da relação entre o pai e o filho, elas moldariam as expectativas de Kafka em todas as situações subseqüentes e também seu relacionamento consigo mesmo. Como esclarece Jung (1990):

… a criança possui um sistema herdado que antecipa a existência dos pais e sua possível influência sobre ela. Em outras palavras, atrás do pai existe o arquétipo do pai e neste tipo pré-existente está o segredo do poder paterno, a exemplo da força que leva o pássaro a migrar. Esta força não é produzida por ele mas provém dos antepassados.(p. 309) … o poder do arquétipo não é controlado por nós; nós é que estamos à disposição dele num grau que nem suspeitamos. (p. 305) O arquétipo atua como um amplificador, aumentando acima da medida os efeitos que procedem do pai, na medida em que estes corresponderem ao tipo herdado. (p.310)

Na Carta Kafka fantasia uma provável resposta do pai a toda a sua visão da relação deles ou ao que ele chamou de “minha fundamentação do medo que tenho de você.” Seria a provável resposta do pai à Carta que, entretanto, nunca foi entregue. Nela, como que coroando o ápice de toda a confissão, expressa a imagem de si refletida nos olhos do pai, isto é, o modo como o pai o veria caso se detivesse no assunto, ainda que para objetar a verdade do filho. Apresenta a última forte caracterização desse mútuo desencontro que foi, até então, a relação deles, em que expressa seu desamparo e sua dor. Fala por Hermann:

Admito que lutamos um com o outro, mas há dois tipos de luta: o combate cavalheiresco, em que se medem as forças de contendores independentes e cada qual responde por si, perde por si e ganha por si. É a luta do inseto daninho, que não só pica, mas também suga simultaneamente o sangue para conservar a vida. (p. 72) [grifo meu]

Esta passagem deixa entrever, para além da inferioridade, a vergonha pela imoralidade da conduta. É a confrontação entre um gigante e um inseto, e nem um inseto de valor como a formiga, por exemplo, mas um inseto daninho que, além de prejudicar, se aproveita da vítima para nela parasitar completamente.

Essa realidade aparece em inúmeras passagens da Carta como ” eu perdi a auto-confiança, que foi substituída por uma ilimitada consciência de culpa” (p. 44) ou “Perdi a confiança nos meus próprios atos. Tornei-me instável, indeciso. Quanto mais velho ficava, tanto maior era o material que você podia levantar como prova da minha falta de valor; aos poucos você num certo sentido acabou tendo realmente razão.” (p. 24) ” Nem mesmo sua desconfiança dos outros é tão grande quanto a minha autodesconfiança para a qual você me educou.” (p. 74). Focar o conjunto de sentimentos acima, que guardam certa contigüidade entre si e tecem um cenário anímico do filho, é uma das possibilidades de leitura que nos permite perseguir a pista de uma relação com um pai caracteristicamente narcisista.

Narciso e Eco

A noção de narcisismo orientará a compreensão da Carta, como vértice para onde aponta a visão do autor em relação a seu pai e que também orienta a convergência dos sentimentos mais tocantes do texto.

A mãe, conforme ele a descreve, ocupava desgastante posição. Trabalhava na loja e na casa, sofreu “em dobro” as doenças na família, conforme afirma Kafka, numa provável referência aos males contraídos por seus irmãos falecidos. Mas, acima de tudo, penava como intermediária entre o marido e os filhos que, através dela, expressavam algum enfrentamento ao pai. Era uma mulher situada entre forças que não podia dominar. Suportou o sofrimento, segundo o filho, nutrida pela força e recompensas provindas do amor à família.

Ernst Pawel (1986) confirma essa visão da mãe de Franz em relação ao pai quando enfatiza o empenho de Julie na luta do marido, por sua vez voltado cegamente para os negócios, em busca de ascender econômica e socialmente. Isto fez com que ela tivesse uma presença reduzida junto ao filho e depois também às filhas, criados por babás, enfermeiras e governantas – com quem, em Carta à sua noiva Felice Bauer, em 1912, Kafka declarou ter sempre estado em combate. A mãe, absorvida pelo projeto do marido, foi levada por seu estilo, seu desejo, sua autoridade. Pawel atribui ao fato de não ter sido maternalizada – perdera sua própria mãe aos três anos – o de ter se tornado uma mãe distante e buscado obter amor graças ao trabalho junto ao marido, que foi seu modo de se relacionar com ele. Ao não se reconhecer, provavelmente porque não teve uma mãe que a espelhasse, Julie entra no projeto de vida do marido. Torna-se uma escrava psíquica dele, isto é, nega sua essência e excelência numa tentativa de se adaptar e atender a expectativa do outro. Ela também não se validava aos próprios olhos e esperava ser validada pelo marido. Estas são características da personalidade Eco segundo Raíssa Cavalcanti.

A contrapartida para Kafka, suponho, foi a ausência de rêverie materna. De acordo com Melanie Klein ser mãe significa ser capaz de fazer a rêverie, isto é, ser capaz de receber algo que a criança projeta (ex.: seus medos, seus terrores), elaborando e devolvendo esse conteúdo modificado. A personalidade Eco não é capaz de maternalizar porque, entre outras coisas, está muito ocupada dedicando-se ao projeto de Narciso – refiro-me a Hermann. Por isso os filhos não são vistos e são criados em completa solidão.

A literatura psicanalítica chama esse par complementar, que a mãe e o pai de Kafka formavam, de Eco e Narciso. Raíssa Cavalcanti comenta: “Eco é um objeto de possessão de Narciso, é uma extensão de sua voz. Narciso, defensivamente, vê Eco ligada a ele e nega sua presença como um ser individualizado e independente.” No mito grego Narciso, diante do espelho, contempla sua própria imagem e antes de seu encontro pessoal com a ninfa Eco, nega a percepção de sua presença como medida defensiva. Ele só a percebe através de sua própria voz. Nas palavras de Muniz Rezende (1999):

A desgraça de Narciso é esse espelho, que transforma a ninfa em seu eco apenas. O mito é muito inteligente e soube escolher apropriadamente o nome da ninfa. Narciso não seria Narciso se Eco não fosse Eco. O contrário também: Eco não seria Eco se Narciso não fosse Narciso. Isto é: se entre os dois não houvesse um espelho refletindo o mesmo. … Na versão de Ovídio, podemos ver como, na fala da ninfa, o que Narciso ouve é um eco de sua própria fala. Mesmo na tentativa de se comunicar, Narciso é prejudicado pelo eco de sua própria voz. Ele só ouvia o que lhe dizia respeito, e não conseguia aprender nada a respeito do outro como outro. O que é que isso significa? Significa que quando me olho unicamente com meus olhos, meu olhar fica viciado, contaminado, por meu próprio ponto de vista. … O meu olhar só meu não me informa sobre nada mais além do que eu mesmo posso ver ou posso ser. (p. 159 e 160) .

Caracterizada pela nulidade ou pelo que Franz chamou de “pouca autonomia em seu poder espiritual”, Julie era incapaz de assumir posição própria em defesa do filho desde que isso representasse oposição ao marido, figura que amava e em cuja órbita girava, cada vez mais cegamente. Diante de Narciso ninguém tem direito a existir a não ser como prolongamento dele; essa era a característica da relação dos pais de Kafka: Narciso e Eco. Por sua vez, a relação dos pais para com ele, Franz, só podia ser de extensão, o que aumentava seus sentimentos de solidão e invalidade.

De acordo com a forma como Kafka se sentia na infância não havia atalhos que reduzissem a distância que separava ele e as irmãs, do pai, um ser tão absoluto. A amorosidade entre eles não tinha como se realizar diante da postura superior e infalível do pai; com isso, não se criava nos filhos um ambiente interno de segurança. O pai se via como herói da família, do sucesso sócio-econômico que ia conquistando e, pelo outro lado dessa mesma moeda, apresentava-se como vítima do não reconhecimento do filho e de suas estranhas características. Sem conseguir ser verdadeiramente generoso na distribuição do conforto que concedia à família o pai vangloriava-se de seus feitos. Além disso, comparava a infância pobre que tivera com as facilidades que lhes concedia de forma a criar um ambiente de culpabilização que recaía sobre eles. Kafka não se lembra de ter recebido uma única vez o belo sorriso do pai. As trocas em família, em casa ou na loja dos pais, eram negativas. Elas semearam distância, desconfiança de ambas as partes e, no filho ao menos, foram semente de um mundo interno povoado de medo, culpa, inferioridade, sentimento de nulidade, eventuais desejos de vingança.

O pai – Hermann – buscava insaciavelmente atividades e se cercava de pessoas por necessidade. Entretanto, como lembra Raíssa Cavalvanti “essa busca mostra-se sempre infrutífera pois , para o narcisista, não existe objeto capaz de preenchê-lo.” Além disso, por seu tipo de personalidade, era incapaz de sentir gratidão. Narciso só consegue mobilizar sentimentos de inveja, raiva e inferioridade. De algum modo, pelo próprio convívio com a emocionalidade do pai, os filhos o pressentiam e por isso não se arriscavam a desenvolver uma receptividade maior.

O que ele esperava do pai? Esperava encorajamento, tolerância. Ansiava por acolhimento emocional: ser aceito e amado pelo que de fato era, ser visto em sua individualidade. Ao contrário disso, o pai só manifestava entusiasmo quando o filho agia de forma que ele supunha ser semelhante à dele, espelhando-o, aplaudindo suas características. Era o que o pai demonstrava desejar que o filho fosse: à sua imagem e semelhança. E em relação ao modo de ser do filho, tão diverso dessa expectativa, o pai demonstrava desgosto, desaprovação. É o que se depreende de certos trechos da Carta em que expressa suas necessidades em relação ao pai:

Eu teria precisado de um pouco de estímulo, de um pouco de amabilidade, de um pouco de abertura para o meu caminho, mas ao invés disso você o obstruiu, certamente com boa intenção de que eu devia seguir outro. Mas para isso eu não tinha condição. (p. 13)

Em outra passagem, quando lamenta o relacionamento de sua irmã Ottla com o pai, expressa o que desejaria: “a felicidade da concórdia entre pai e filho.” (p. 40) Ora, para perceber a necessidade e a importância da harmonia familiar para um filho é preciso que o pai ou a mãe reconheçam a existência de uma subjetividade no filho, distinta da deles, vale dizer, sua individualidade. No mundo de Narciso o outro, como individualidade, não existe. O não reconhecimento do outro como outro leva Narciso a realizar sobre ele uma projeção maciça de si.

Ao projetar sua subjetividade sobre o(s) filho(s) Hermann Kafka não permitiu que ele(s) desenvolvesse(m) sua personalidade de modo a constituir(em) uma identidade saudável. Franz prossegue com exemplos das discrepâncias não aceitas de horizonte, de valores, que em sua visão geraram tamanho desencontro amoroso.

Você me estimulava, por exemplo, quando eu batia continência e marchava direito, no entanto eu não era um futuro soldado; ou me estimulava quando eu comia vigorosamente e além disso conseguia beber cerveja; ou quando sabia repetir canções que não compreendia, ou arremedar suas expressões prediletas; nada disso, entretanto, fazia parte do meu futuro.” (p. 14) [grifo meu]

Em outro momento Kafka descreve seu processo de emudecimento forjado na relação com o pai. Na passagem abaixo expressa a posição de dominado. Não soube o que é ser filho. Sua experiência foi outra: foi amordaçado.

A impossibilidade do intercâmbio tranqüilo teve uma outra conseqüência na verdade muito natural: desaprendi a falar. Certamente eu não teria sido, em outro contexto, um grande orador, mas sem dúvida teria dominado a linguagem humana corrente e comum. No entanto, logo cedo você me interditou a palavra, sua ameaça: “Nenhuma palavra de contestação!” e a mão erguida no ato me acompanharam desde sempre. Na sua presença – quando se trata das suas coisas você é um excelente orador – adquiri um modo de falar entrecortado, gaguejante, para você também isso era demais, finalmente silenciei, a princípio talvez por teimosia, mais tarde porque já não podia pensar nem falar. (p. 22) [grifo meu]

O menino que não podia ser ouvido acabou encontrando um modo de usar as palavras. Solitário, sem o risco de ameaças. Escrever, para ele, foi a forma de abertura possível.

O pai como medida de todas as coisas

Percebia sua imagem refletida de modo tão negativo aos olhos do pai já que estava tão distante de corresponder à expectativa dele, era tão diferente dela. O pai funcionava sempre por uma exigência de que o outro se comportasse segundo seus desejos e necessidades, ou seja, relacionava-se com o mundo visando à obtenção de gratificações narcísicas. Esse modo de ser devia ser intensificado em relação ao único filho, numa busca de espelhamento às avessas.

Era então, em tudo e por tudo que eu teria precisado de estímulo. Já estava esmagado pela simples materialidade de seu corpo. Lembro-me por exemplo de que muitas vezes nos despíamos juntos numa cabine. Eu era magro, fraco, franzino, você forte, grande, largo. Já na cabine me sentia miserável e na realidade não só diante de você, mas do mundo inteiro, pois para mim você era a medida de todas as coisas. (p. 14) [grifo meu]

A força que a figura do pai tinha para ele, tanto no plano concreto, físico, como no simbólico, interno, aparece expressa na impressionante imagem acima citada. Entretanto, a força que atribuía ao pai não era somada à sua própria pessoa, não contava a seu favor, como cumplicidade, parceria ou proteção. Nem sequer se via pertencendo ao mesmo “time” do pai. “Da sua poltrona você regia o mundo.” O pai era, a seu ver, um verdadeiro soberano absoluto que como tal se via acima de qualquer contradição, livre para professar o que bem lhe aprouvesse, criticando quaisquer assuntos, pessoas e até povos, indiscriminadamente, e de forma global. Foi um adolescente ofuscado por essas características tirânicas do pai, descritas como “a medida de todas as coisas”.

Estas características revelam um distúrbio psicótico tal como o compreende W. R. Bion. Quero dizer que para esse autor o mundo, na visão psicótica, é concreto e, portanto, não é passível de uma polissemia de sentidos. A opinião é única, não existe outra. O sentido é unívoco: medida de todas as coisas. Com isto, a arrogância de estar sempre certo e o dogmatismo, ancorado na sombra (pulsão de morte para o autor citado), originam-se numa grande dose de onipotência e impossibilitam o jogo dialógico.

Por que Franz não conseguia cortar a dominação do pai? O pai o fizera em relação ao seu próprio pai. Entretanto, em meio a tantos fatores intersubjetivos por ele alinhavados, um fator salta à vista e parece responder à questão de tão grande calibre: a atitude da mãe. Aliada do marido, ela impede o corte. “Essa oportunidade só se poderia criar pela violência e pela subversão, seria preciso fugir de casa (supondo-se que tivesse existido capacidade de decisão e força para tanto e minha mãe, por seu lado, não tivesse trabalhado contra por outros meios.)” (p. 31). Ora, um menino que não conta com a amizade e a confiança do pai nele, que não conta com um espaço afetivo por parte do pai a ponto de não ser visto por ele em sua individualidade, não pode abrir mão do apoio da mãe. Se o fizesse, estaria totalmente sozinho e não teria condição emocional de seguir em frente, enfrentando o novo.

A insegurança se potencializa no momento de se definir em relação ao pai se a mãe o destitui de suas razões. Como não conseguiu romper, foi desenvolvendo o “sentimento de nulidade“, expresso por ele em diversos momentos da Carta. “Eu podia desfrutar o que você me dava, mas só com vergonha, cansaço, fraqueza, consciência de culpa. Conseqüentemente, por tudo isso eu só conseguia ser grato como um mendigo, nunca através da ação.” (p. 33)

A dupla mensagem está presente, como não poderia deixar de estar, no que Kafka chamou de recursos oratórios” do pai, infalíveis, que assim classificou: insulto, ameaça, ironia, riso malévolo e auto-acusação. A forma agressiva pela qual o pai reagia a qualquer situação que o desagradasse – mostra sua incapacidade de lidar com frustrações. Reagia então através de uma verdadeira fúria narcísica, conceito da psicanálise utilizado por Raíssa Cavalvanti, que explica o encadeamento entre a frustração e a reação.

Sem nomear, Kafka desvela o narcisismo do pai, arrolando tipos de comportamento, caracterizando-os, configurando uma postura, delineando um modo de ser que aponta sempre na mesma direção: impulsividade e descontrole, impenetrabilidade e auto-referência extrema, incapacidade para tolerar crítica, necessidade de ser amado e admirado, onipotência, comportamento auto-suficiente, pouca capacidade empática, incapacidade de sentir prazer diante da vida, orgulho de não ter necessidades e dependências emocionais e de fazer muito pelos outros, incapacidade de sentir gratidão, incapacidade de perceber o outro como outro de fato.

Era na loja, porém, que eu o via e escutava xingar e se enfurecer de um modo que, na minha opinião da época, não acontecia em nenhuma outra parte do mundo. E não só xingar como também exercer as demais formas de tirania. Como, por exemplo, atirar do balcão, com um golpe, mercadorias que você não queria ver confundidas com outras – só o desculpava um pouco a irreflexão da sua cólera – e o caixeiro tinha de ergue-las do chão. Ou a expressão que você usava constantemente a respeito de um caixeiro doente dos pulmões: “Esse cachorro doente devia rebentar de uma vez!” Você chamava os empregados de “inimigos pagos”, e eles com efeito o eram, mas antes ainda de terem se transformado nisso você me parecia ser o “inimigo pagante” deles. (p. 34)

Quando despeja sobre o mundo sua fúria, o pai demonstra também a imensa solidão em que vive. Em seu mundo só existe ele. O outro é motivo de invalidação constante, única maneira de Narciso se afirmar – isto faz parte do pathos de Narciso: a solidão.

É significativo que até hoje você só me encoraje de fato naquilo que o afeta pessoalmente, quando se trata do seu amor-próprio, que eu firo (por exemplo, com o meu projeto de casamento) ou que é ferido em mim (quando, por exemplo, Pepa me insulta). Então sou estimulado, lembrado do meu valor, remetido às partilhas que tenho o direito de fazer, e Pepa é inteiramente condenado. … Mas deixando de lado o fato de que hoje, na minha idade, já estou quase inacessível ao encorajamento, no que iria ele me ajudar, se só se manifesta onde em primeira linha não se trata de mim? (p. 14) [grifo meu]

Retomando o tema da Carta ao pai, isto é, a relação dele com os filhos, ponto de partida da reflexão de Kafka neste livro, nas últimas palavras do trecho abaixo ele sintetiza:

Ouve-se então apenas o seguinte: “Faça o que quiser; por mim você está livre; você é maior de idade, não tenho conselhos para lhe dar” – e tudo naquela inflexão terrível e rouca da ira e da completa condenação, diante da qual eu hoje só tremo menos que na infância porque o sentimento de culpa exclusivo da criança foi em parte substituído pela compreensão do nosso comum desamparo. (p. 21) [grifo meu]

Como essa relação se desenrolou com suas irmãs?

Ottla, sua irmã, fez o que ele não pode fazer. Enfrentou a briga com o pai. Rompeu. Fugiu e, à medida que fugia, foi se distanciando e produzindo com isso um processo de estranhamento.
A irmã foi construir sua própria vida, longe da família.

Valli, outra irmã, era como a mãe: se sujeitava. Perdeu a autonomia e ficou contente pois com isso foi mais acolhida. Não foi feliz com o pai, na visão do irmão, em função dele e de Ottla, de sua influência, mas sofreu menos em troca de abdicar à própria personalidade. Pode-se ver claramente na relação do pai com Valli, menos conflituosa, a marca da personalidade dele. Abrindo mão de desenvolver sua individualidade ela provavelmente funcionava de modo semelhante ao da mãe em relação a Hermann, servindo à sua satisfação narcísica ou, ao menos, não despertando nele incômodo pela sua alteridade.

E a outra irmã, Elli, era para Kafka como ele próprio se via: avarenta, mesquinha, preguiçosa. Franz se identifica com tantas características dela que revelam o jugo da educação e mostram o sentido da avareza: infelicidade profunda. Entretanto ela encontrou um homem e o amor a redefiniu.

O ambiente interno de Kafka no que diz respeito às relações familiares, especialmente ao pai, é sempre de tristeza. A infelicidade familiar o atinge num tal grau que o faz sentir-se desesperado. O que ele tanto lamenta e que origina esse sofrimento? O modo de ser do pai, sua intransigência, que está na base da discórdia e do sofrimento da família. A irredutibilidade de seu gênio, de suas concepções, onde ninguém tem direito a ser ou pensar diferentemente dele. Narciso não pode abrir mão de ser espelhado. É incapaz de apreender as diferenças que o outro representa, o que o leva a desvalorizar as características de quem é diferente dele. É isso o que gera desespero: algo que não mudaria unca, o filho bem o sabe. O abismo intransponível entre os filhos e o pai. Jung (1999) esclarece a profundidade dos danos imprimidos ao desenvolvimento do caráter dos filhos pelos problemas não assumidos de seus pais e mantidos inconscientes, como uma “maldição” hereditária:

A infecção dos filhos se dá por via indireta … A criança se acha verdadeiramente sem recurso algum e, à semelhança da cera que retrata a imagem impressa pelo sinete, está exposta à influência psíquica dos pais, que a marcam com tudo o que for ilusão, falta de sinceridade, fingimento, timidez covarde, procura egoísta de comodismo, sentimento de auto-suficiência moral. A única coisa que pode preservar a criança desses danos desnaturais é a atitude sincera dos pais diante dos problemas da vida. (p. 84)

Franz nem se sujeitou nem fugiu. De certo modo foi a Elli que não deu certo. Não conseguiu agarrar a chance de ser feliz através do amor. O casamento, para ele – garantia de auto-libertação e independência – possibilitaria que “a velha e eternamente nova vergonha” passasse a ser “apenas uma história”, uma vez que com ele alcançaria o máximo alcançado pelo pai. “É algo excessivo, não se pode conseguir tanta coisa assim”. (p. 67)

Para Kafka, entretanto, o casamento não poderia representar uma libertação justamente porque era um domínio de sucesso de seu pai e portanto se vinculava a ele. Paradoxalmente, ao lado disso, trouxera como fruto o desastre da relação com os filhos. Ofuscado pela magnitude de tal desgraça e atingido pela pressão do medo, da fraqueza e do autodesprezo, Franz via no casamento duas vicissitudes possíveis: progresso e perigo.

Imaginando-se incapaz diante do sentimento de perigo ele não aposta no progresso. Ao contrário, sucumbe, renuncia ao projeto. Com todo esse conteúdo o processo vivido por ele nas suas tentativas de casar fizeram com que a promessa de salvação tão “grandiosa” e “cheia de esperança” tenha se convertido no maior terror da vida de Kafka e na prova duradoura, decisiva e mais amarga por que passou, em sua própria avaliação. Seria impossível vencê-la já que os dois, pai e filho, não poderiam ser “apagados” assim como a experiência de infelicidade que constituíram entre eles. Kafka se confessa impotente diante do desejo do casamento. Responsabiliza o pai pelo fracasso dos projetos de casamento em que ele acredita ter concentrado suas forças mais positivas que, porém, não puderam fazer frente à fúria das negativas “seqüelas da sua educação, ou seja, fraqueza, falta de auto-confiança, consciência de culpa, que literalmente estendiam um cordão de isolamento” entre ele e o casamento.

Casar, dar origem a uma família, criar e orientar os filhos representava para ele a maior conquista de um homem, para a qual ele se via despreparado. Confessa sua incapacidade espiritual para tanto. Traça um quadro desse significado para si próprio, o “raciocínio” envolvido nesse projeto, suas “tentativas de salvação em outras direções”,toda uma subjetividade, enfim, da qual o pai “não alcançava nem de longe o sentido”.

*

No belo ensaio em homenagem a Kafka, escrito por ocasião dos dez anos de sua morte, Walter Benjamin quase nos dá a chave para ligar a vida e a obra do escritor. Ilustra a dimensão do ambíguo presente na obra de Kafka, de uma realidade de aparência, escorregadia, sem firmeza ou perspectiva. Essa caracterização estabelece um vínculo com muito do que o escritor revela na Carta. Num momento Benjamin refere-se a um personagem kafkiano, um estudante que lê e faz anotações. Segundo ele Kafka se vê obrigado ao estudo. “Nesse processo, talvez ele encontre fragmentos da própria existência, que talvez ainda estejam em relação com o papel. … Ele se compreenderia enfim, mas com que esforço imenso! Pois o que sopra dos abismos do esquecimento é uma tempestade. E o estudo é uma corrida a galope contra essa tempestade” . (p. 162)

De resto, é o próprio Kafka quem afirma ao pai: “Meus escritos tratavam de você, neles eu expunha as queixas que não podia fazer no seu peito. Eram uma despedida intencionalmente prolongada de você; só que ela, apesar de imposta por você, corria na direção definida por mim. Mas como tudo isso era pouco!” (p. 52) [grifo meu]


Referências

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CARONE, Modesto. Uma carta notável. Posfácio in KAFKA, Franz. A carta ao pai. Tradução e posfácio Modesto Carone. São Paulo, Cia. das Letras, 1997.

CAVALCANTI, Raíssa. O mito de Narciso: o herói da consciência. São Paulo, Cultrix, 1992.

FREUD, Sigmund. Sobre a psicologia do colegial In Obras completas. 4a. edição, Madri, Biblioteca Nueva, 1981

JUNG, C. G.. Freud e a psicanálise. Petrópolis, Vozes, 1990. (Obras completas v. IV).

___________ O desenvolvimento da personalidade. Petrópolis, Vozes, 1999. (Obras completas, v. XVII)

KAFKA, Franz. The diaries of Franz Kafka, 1914-1923, trad. Martin Greenberg, Nova Iorque, Schocken Books, 1973.

______________ Carta ao pai. São Paulo, Companhia das Letras, 1997.

LAING, Ronald. O eu dividido: estudo sobre a loucura e a sanidade. Rio de Janeiro, Zahar, 1963.

LOWEN, Alexander. Narcisismo: negação do verdadeiro self. São Paulo, Cultrix, 1993.

OGDEN, Thomas. Os sujeitos da psicanálise. São Paulo, Casa do Psicólogo, 1996.

PAWEL, Ernst. O pesadelo da razão: uma biografia de Franz Kafka. Rio de Janeiro, Imago, 1986.

REZENDE, Antonio Muniz de. A questão da verdade na investigação psicanalítica. Campinas, Papirus, 1999.

VON FRANZ, Marie-Louise. A alquimia e a imaginação ativa. São Paulo, Cultrix, 1979.

A autora, Paula Perrone, é psicóloga clínica, analista didata do IJUSP, AJB e IAAP, doutora em psicologia pelo IPUSP, autora do livro Existências fascinadas: história de vida e individuação e de diversos artigos.