Ensaio – Psicologia para todos

Autor: José Jorge de Morais Zacharias

Todo analista que se dedica a estudar e compreender a psicologia analítica sabe que é grande o esforço intelectual exigido. Esta é uma abordagem complexa, uma psicologia do complexo, e requer do analista muitos e amplos conhecimentos de cultura geral, mitologia, religiões, história, arte e, psicologia, claro!

A busca destes conhecimentos constrói, paulatinamente, uma ampliação de percepção da vida como um todo, obrigando o analista a muito esforço intelectual pautado na racionalidade dos atributos cognitivos.

Por outro lado, e até como um dinamismo compensatório da atividade intelectual, a formação exige a vivência pessoal, a experiência com os aspectos primitivos, inferiores, instintivos, criativos, afetivos e sagrados da própria personalidade do analista. Logos exige a compensação de Eros para que a inteireza de aprimoramento seja construída passo a passo.

Mesmo que o analista compreenda seus processos, antes desta apreensão pela racionalidade, estes mesmos elementos foram vivenciados afetivamente, simbolicamente como processo vivo que arrebata a consciência e se impõe como realidade psíquica. Manter o símbolo vivo enquanto se tenta compreendê-lo com os recursos da cognição é a arte da sensibilidade do analista. Dissecar um gato é observar um corpo morto, portanto não será um gato em sua totalidade. A realidade do gato somente poderá ser observada se este corpo for animado, ou seja, expressar sua Alma.

O estudo e o exercício intelectual a que o analista se propõe é um treinamento científico muito específico, uma vez que a ciência é um corpo de conhecimentos construído por meio de método próprio. Portanto o analista é um cientista, ou seja, relaciona-se com os fenômenos psíquicos do ponto de vista da ciência psicológica. No entanto este não chega a ser o único meio de se lidar com os fenômenos psíquicos, haja vista que antes do surgimento da ciência psicológica e da psicologia analítica, outros sistemas como a religião, as artes, a astrologia e as magias ocupavam este lugar de compreender os sonhos.

Todo este esforço intelectual no treinamento do analista pode distanciá-lo de universos mais simples da vida comum e das pessoas que não tiveram oportunidade ou interesse em ampliar seu campo de conhecimento cultural ou intelectual. Esta posição cria diferenças que podem conduzir à falsa ideia de que a psicologia analítica somente pode se aplicar a pessoas mais cultas ou letradas.

Entendo que a dinâmica psíquica se apresenta independentemente da formação acadêmica ou da assimilação da cultura formal. Caso não fosse assim diríamos que na África não há psique, ou que somente a intelectualidade européia pode compreender e salvar a África. Quanto a aspectos sócio-econômicos a Europa bem poderia contribuir para o desenvolvimento do continente, mas por séculos temos visto que a atuação sombria do velho mundo tem sido muito mais efetiva. Muitas vezes a intelectualidade tem horror ao tribal e quer subjugá-lo, dominá-lo e o despreza, e vice-versa. São as polaridades psico-culturais se excluindo.

Como um exemplo da visão de mundo euro centrada e excludente que pode se manifestar nas ciências humanas, cito o famoso pesquisador Nina Rodrigues. No final do século XIX, este importante médico baiano, com base em suas pesquisas com os negros, concluiu que a histeria não era uma patologia exclusivamente feminina, mas também poderia ser diagnosticada em homens negros por causa das possessões e dos transes nos candomblés. Outra constatação importante era a de que os negros tinham uma estrutura cerebral inferior aos brancos, o que lhes impediam de compreender o monoteísmo, sendo forçados por aspectos fisiológicos a permanecerem acorrentados ao politeísmo fetichista e primitivo. Esta era a boa ciência da época.

Muitos questionamentos se seguiram a esta postura intelectualizada da civilização ocidental no século XX, postuladas por muitos pensadores, e mesmo por Jung. O afastamento da vida anímica conduziu a Europa a duas guerras com resultados nefastos e, ainda hoje, horrores de guerra são levados a cabo pela jovem América do Norte. Pelo apresentado me parece que a visão excessivamente intelectualizada e eurocêntrica da vida cria uma cisão entre as tradições de diferentes povos.

Posto isto vou entrar no cerne do tema, é possível se desenvolver um processo analítico com pessoas simples, humildes e incultas?

Alguns podem argumentar que a psicologia analítica é ampla, mas que alguns analistas tornam-se elitizados; outros que pessoas simples não sonham e por isto estão excluídas da possibilidade de análise; ou ainda que pessoas incultas não teriam condições de elaboração intelectual de processos e símbolos que podem emergir na análise, não terão condições de relativizar os conteúdos presentes em figuras como Deméter ou Zeus, não conhecem mitos, não sabem nada da literatura, dos filósofos, dos artistas portanto, não terão condições de desenvolver um processo em busca de sua própria Alma.    A abordagem analítica somente se presta a atender pessoas com formação acadêmica, com vivência cultural dita erudita e competência intelectual desenvolvida, o que também garante um honorário mais alto para o analista.

Vou defender o diabo, ou o pobre diabo, como queiram. Gente simples pode ser tão inteligente quanto gente culta, a inteligência não está vinculada a quantidade de informação, mas à capacidade de processamento das informações. Pessoas inteligentes realizam com maestria seus talentos, seja um físico seja um mecânico de automóveis. Estará presente, ainda, a velha discussão de que as funções intuição e pensamento sejam superiores à sensação e ao sentimento? Como seria a vida dos intuitivos se não houvesse muita gente sensação? Como intuitivo sou imensamente grato aos tipo sensação, pois eu não sei fazer o que eles fazem, se eu fosse assentar os tijolos da minha casa, certamente ela cairia, para esta tarefa sou completamente “burro”, apesar de ter título acadêmicos.

Então, capacidade intelectual não seria o impedimento para se aplicar a análise a pessoas mais simples.

Partindo do ponto de vista de que gente simples pode ser inteligente, mas sem conhecimento formal, vamos à questão dos símbolos. Certamente gente simples da nossa terra pode nunca ter ouvido falar em Deméter ou Zeus, mas conhece Maria e Jesus; ou ainda Yemanjá e Xangô; a Preta-Velha e o Caboclo, ou numa visão protestante Deus como paterno e materno no cuidado dos seus filhos. As imagens simbólicas estão presentes, não há psique que não tenha estes conteúdos em sua fenomenologia, não importa a classe social e o nível educacional. Pode-se dizer que os romeiros de Aparecida, ou do Círio de Nazaré não racionalizam estes símbolos, mas os vivem profundamente na externalização de sua fé. Muitos analistas podem conhecer os símbolos, mas a racionalidade excessiva com que os aborda pode torna-los desvitalizados.

Talvez seja uma questão mais do analista que não compreende esta linguagem, estes símbolos, não transita por eles. Nós, analistas conhecemos a mitologia brasileira, o folclore, os orixás, os guias de umbanda, os fundamentos do pentecostalismo, ou até mesmo os símbolos do catolicismo? Esta é a expressão simbólica de gente simples que participa de procissões, vão à missa ou ao culto, recebem passes no terreiro ou no centro kardecista, seguem o Bumba-meu-Boi, temem a Mula-sem-Cabeça. Nas grandes cidades estas assombrações do campo ganham novos contornos, materializam-se na violência cotidiana cuja dor clama por acolhimento e integração na psique maior. Os caminhos das periferias podem ser tão perigosos quanto os que eram percorridos pela Mula, e com as mesmas conseqüências. Por outro lado, algumas pessoas podem estar tão distantes de si mesmo que a vida simbólica não passa de bobagem, e desprezam a Alma com uma arrogância digna de nota.

Ha, ia esquecendo, e gente simples sonha cada sonho bonito, uma boniteza! (e pra quem não entender, boniteza está aqui colocado como um sátiro, uma galhofa proposital à língua culta, jamais uma infantilização).

Alguém pode argumentar que a conversas da gente simples é fútil, fala-se de liquidações de lojas populares, de pequenas aquisições, da vida dos outros, do próximo churrasco na laje, de amores em que é mais importante o sexo que o idílio, da opressão do patrão, da dificuldade em pagar contas. Mas, as pessoas mais intelectualizadas falam coisas diferentes? Fala-se da loja chique, dos bens, da vida dos outros, da viagem á Europa ou Oriente, fala-se mais de poder que de sexo nas relações amorosas e das festas freqüentadas. De modo algum faço qualquer crítica a qualquer um dos grupos, eu também falo futilidades, todos nós falamos, o cotidiano da consciência é fútil e somente ganha profundidade com a interferência do inconsciente.   O que conta não é o fato de todos sermos fúteis, mas a disposição para se escutar intimamente, profundamente e ampliar o sentido da vida cotidiana para além das ninharias. Meu propósito não é criar uma luta de classes, mas demonstrar que em certa dimensão somos todos humanos, feitos da matéria dos sonhos.

Tomando como exemplo a fé católica, entendo que a igreja produziu São Bento de Núrsia, um mestre introvertido, estudioso, contrito e profundo em sua espiritualidade. Mas também deu à história São Francisco de Assis, um mestre extrovertido, preocupado com as gentes simples, a natureza, a vida instintiva – essência da criação divina – e também profundo em sua espiritualidade. A fé é para todos, acredito que a psicologia analítica também o é.

Devemos pensar que psicologia analítica fazemos, para quem e a serviço do quê. Para nossa própria vaidade intelectual, exclusivamente como forma de ganhar a vida, para ascensão social, para contribuir com o meio social em que vivemos, para nos maravilharmos com o fenômeno psicológico, para ampliar nosso sentido de vida, para quê?

Encerrando este ensaio, reafirmo minha opinião de que a psicologia analítica é útil para todos, independente de formação cultural ou posição social. O analista deve, este sim, conhecer a ciência e a cultura, inclusive a de seu próprio povo, para acompanhar o analisando por seus próprios caminhos, procurando compreender cada pessoa em seu universo pessoal de experiências e a relação com o coletivo.

A Vida caminha de mãos dadas com a Alma!

Prof. Dr. José Jorge M. Zacharias

Analista IJUSP/IPAC/AJB/IAAP

                                                                                                                       Unipaulistana – 2013