Os primórdios da literatura brasileira – O arquétipo do Trickster nas raízes da alma brasileira

Autor: Rubens Bragarnich

Palestra proferida no II Simpósio do IJUSP em parceria com a Casa das Rosas, com o tema: Jung e a Literatura Brasileira, em São Paulo,  28 de setembro de 2010.

Se souberas falar também falarás

                                                também satirizaras, se souberas,

                                                         e se foras poeta, poetarás.

Gregório de Matos e Guerra

A Psicologia Analítica, embora enfatize o principio finalista, encontra o seu próprio mito no cenário do arquétipo da origem, onde fica consagrada a eclosão primeira, o broto mais puro, a pedra angular, a simbólica mais límpida da alma individual ou coletiva.

Nós, junguianos, somos completamente absorvidos pela força deste arquétipo e por isso estudamos as civilizações antigas, suas mitologias e as expressões culturais de povos chamados primitivos, já não mais para provarmos a existência atemporal e ubíqua do arquétipo, mas para colhermos sua  manifestações mais tenras nos seus movimentos mais delicados e puros.

Sabemos que a literatura européia filtrada pelo espírito português constitui a pré-história da literatura brasileira. Quando então podemos dizer que se inicia a literatura brasileira? Na carta de Caminha ao rei de Portugal? Nos registros dos ensinamentos e poesia de Anchieta? Ou ao contrário, somente mais tarde, com o Arcadismo dos poetas da Inconfidência Mineira? Critério político!

Este é o ponto de vista capitaneado por Antonio Candido. No clássico ‘A iniciação à Literatura Brasileira’, ele nos diz:

Isolados, separados por centenas e milhares de quilômetros uns dos outros, esses escritores dispersos pelos raros núcleos de povoamento podem ser comparados a vaga-lumes numa noite densa. Podia haver lugares, como a Bahia, onde se reunia homens cultos, sobretudo clérigos e legistas. Podiam haver sermões brilhantes que encantavam o auditório, ou poetas de mérito recitando e passando cópias de seus poemas”.

Continua ‘No século XVII apareceram na zona mais culta da Colônia duas das maiores figuras da literatura brasileira, cuja obra até hoje permanece viva e presente: Antônio Vieira e Gregório de Matos.’’

Mas

“No conjunto, eram manifestações literárias que ainda não correspondiam a uma etapa plenamente configurada da literatura, pois os pontos de referência eram externos, estavam na Metrópole…” “… quase não houve no Brasil a produção de escritos onde predominasse a imaginação poética ou ficcional, excetuando-se coisas tão insignificantes…”

Estamos falando do período barroco brasileiro, um estilo que nasceu em reação ao classicismo renascentista com ênfase na simetria, proporcionalidade, contenção, racionalidade e equilíbrio formal.

A estética barroca caracterizou-se pelo oposto: assimetria, excesso, expressivo, o irregular (o termo “barroco” designava uma pérola de formato bizarro e irregular), o dramático, o grandiloquente, a opulência das formas, exuberância. O barroco pretendia causar impacto através de uma atmosfera apaixonada, envolvente e deslumbrante.

Mais do que isso, ele foi uma forma de ver a vida e deu o tom da cultura desse período histórico, como uma corrente estética e espiritual coerente com a cosmovisão européia da época.

Em nossa história, o barroco deu forma a uma larga porção da identidade brasileira tendo sido considerada a alma antiga do Brasil.

Muitos de nós apreciamos a arquitetura barroca das cidades históricas como Ouro Preto, Mariana e outras, as esculturas de Aleijadinho em Congonhas do Campo, as pinturas de Mestre Ataíde ou a música magnífica de um Bach ou Vivaldi. Parecem perenes.

A escrita barroca, entretanto, ficou presa ao espírito da época, encerrada em bibliotecas, tornou-se exótica e destinada ao estudo das escolas literárias nas aulas de literatura portuguesa. Chamamos pejorativamente de barroco escritos detalhistas, exagerados, preciosistas, empolados, pretensiosos.

Se Vieira e Gregório foram os grandes, Manuel Botelho de Oliveira e Bento Teixeira, aproveitando a metáfora de Candido, estão entre os vaga-lumes na noite densa.

“A esse espírito entre devoto e cortesão (do barroco) se vincula um escritor de certo interesse, Manoel Botelho de Oliveira (1636-1711), exemplo típico do falseamento a que chegou o espírito barroco nos seus aspectos menores, quando a argúcia virou pedantismo e a sutileza um mero exibicionismo.”

O mérito de Manoel de Botelho é o de ter sido o poeta brasileiro que publica em 1663, em Coimbra o ‘Hay amigo para amigo’.

Outro vaga-lume é Bento Teixeira (1561 (?) -1618). De biografia nebulosa, alguns o consideram brasileiro e outra corrente o considera português e também há controvérsia sobre o local de sua morte: Pernambuco ou Lisboa.

Escreveu o poema épico ‘Prosopopéia’, publicado em1601 e teria sido a primeira obra de finalidade meramente literária publicada em solo brasileiro, poema que versa sobre a vida do terceiro donatário da Capitania de Pernambuco, Jorge Coelho e seu irmão, Duarte.

Lugar comum nestas literaturas iniciais são as crônicas elogiosas à exuberância natural da flora e fauna da colônia, da força da terra, sua descrição, fecundidade e beleza natural.

Se Botelho e Teixeira são como vaga-lumes, Gregório e Vieira foram estrelas do céu barroco.

Gregório de Matos e Guerra nasceu em Salvador em 23/12/1636 e faleceu em 26/11/1695 no Recife. Advogado também formado em Portugal, sua vida após seu retorno foi de ir ganhando cada vez mais inimigos em função de sua atuação contundente, de sua atitude satírica e da critica mordaz, como um bufão a denunciar a vida política e os costumes da época.

O trabalho literário de Gregório personificou magistralmente o aspecto positivo do arquétipo do trickster. Provocador, obsceno, lírico, erótico.   Foi exilado em Angola e volta doente ao Brasil, sendo proibido de viver em sua cidade natal, vindo a falecer em Recife.

Satírico impiedoso chegou a ser indiciado pela Inquisição por suas constantescriticas a Igreja e por esta mesma razão não é de se estranhar que recebesse a alcunha de Boca do Inferno ou Boca de Brasa.

Antonio Candido nos diz:

“… Gregório de Matos… levou uma vida irregular, a que não faltaram escândalos, a prisão e um exílio na África, dando lugar a lendas tão tenazes quanto duvidosas. A sua obra poética é das mais altas da literatura brasileira, mas só conheceu (parcialmente) a forma do livro nos meados do século XIX, não tendo até hoje sido editada de maneira correta e fidedigna. Ele recitava os seus poemas, que eram transcritos por terceiros, ou oferecia os manuscritos a amigos e admiradores, que os copiavam”.

Antonio Candido examina a obra literária de Gregório:

“Nessa obra há poemas líricos, religiosos e satíricos, que constroem um retrato de sua personalidade revolta e um retrato do Brasil seiscentista, o mais completo até então… Nele há mas o flagrante expressivo até a caricatura, o ataque se elevando a denúncia, a ironia alegre ombreando com a revolta amarga… Ele desdenha as aparências do mundo e desvenda a sua iniqüidade, com um pessimismo realista que não hesita em entrar pela obscenidade e a crueza da vida do sexo. Poucos foram tão fundo nos aspectos considerados baixos, … com uma espécie de ímpeto justiceiro… Através da sua obra de rebelde apaixonado, transparece a irregularidade do mundo brasileiro de então, com a sociedade onde o branco brutalizava o índio e o negro, as autoridades prevaricavam, os clérigos pecavam a valer e a virtude parecia às vezes uma farsa difícil de representar…”

Gregório de Matos, especialmente por sua poesia satírica, burlesca, tricksteriana é considerado por muitos como o maior poeta satírico da língua portuguesa. Em seus poemas revelava aquilo que não podia ser dito abertamente: denunciar os desmandos da Coroa, a hipocrisia do poder eclesiástico, os costumes chulos do povo, a soberba da classe aristocrática.

Seus versos provocativos e irônicos mobilizam aspectos da Sombra Coletiva,  o que está por trás do mundo social da persona, transgredindo os tabus e parâmetros sociais.

Contra a concepção de origem da literatura brasileira de Antonio Candido levantam-se vozes. O crítico e poeta Haroldo de Campos contesta veementemente, compreendendo o nascimento da nossa literatura dentro de uma forma processual, onde é possível capturar a brasilidade literária mesclada com a nossa condição colonial, precária e rudimentar.

Em ‘O seqüestro do Barroco na formação da literatura brasileira’, Haroldo critica a visão histórica reducionista, esquemática e linear de Candido enxergar a nossa formação literária.

Sobre Gregório, Haroldo nos diz:

“Ainda que tenha ficado provisoriamente confinado na memória local e na tradição manuscrita ( que todavia teve forças para prolongar-se através dos séculos XVII e XVIII); ainda que só tenha sido resgatado em letra impressa 150 anos depois de sua morte ; ainda que tenha pesado renitentemente sobre sua reputação… acusação de plagio, a ausência do poeta … foi meramente… mascarada. Presente como inscrição de linha d’água, Gregório sempre esteve no miolo do próprio modelo barroquista de que ele foi um operador excepcional entre nós”.

De fato, a poesia apógrafa (reprodução de um manuscrito original) de Gregório permaneceu guardada em Portugal e coube o historiador Francisco Adolfo Varnhagen em 1850 , resgatar um conjunto de 39 poemas no ‘Florilégio da Poesia Brasileira.’

Outro autor que se coloca contrário ao modelo historiográfico de Candido é Afrânio Coutinho, que defende o Barroco como movimento da literatura brasileira e identifica Gregório de Matos como o primeiro autor deste período pelo seu sentimento nativista.

Todos, no entanto, são unânimes com respeito ao valor literário de Gregório; enquanto Candido o considera uma genialidade pontual, Campos o vê como um digno representante do Barroco brasileiro.

Do ponto de vista da Psicologia Analítica, lembramos que Jung via nos contos picarescos a presença do trickster, em seu famosos posfácio de Paul Radin sobreo arquétipo do Trickster no volume 9i.

Ricki Tannen faz um excelente retrospecto sobre os rastros do trickster até nossos dias, propondo que a energia trickster não é usada para manter o poder e o controle, mas para integrar e unir paradoxos através do humor.

“Trickster é a energia brincalhona que tem a capacidade de produzir humor que pode desencadear transformação. Trickster é Eros usando Logos, produzindo prazer através do aparato cognitivo da psique”.

O humor e a ironia são os aspectos centrais da energia tricksteriana que transformam a cultura através da arte, por ter a criatividade como impulso básico, que Jung considerava um dos 5 principais impulsos primários.

Utilizarei alguns exemplos dessa vitalidade satírica, picaresca, critica, lembrando que o poeta foi pródigo também em sonetos líricos, epitáfios, crônicas de costumes e relato de festejos e ritos locais.

Observemos exemplos de sua poética.

Quando escreve a uma freira que havia satirizado sua magreza.

Pica-Flor”

 

Se Pica-Flor me chamais,

Pica-Flor aceito ser,

Mas resta agora saber,

Se no nome que me dais,

Meteis a flor que guardais

No passarinho melhor!

Se me dais este favor

Sendo só de mim o Pica,

E o mais vosso, claro fica,

Que fico então Pica-Flor.

Dentro dessa perspectiva obscena, poemas dedicados as religiosas, alvo preferido do autor, como o excerto:

Meninas, pois é verdade,

não falando por brinquinhos,

que hoje aos vossos passarinhos

se concede liberdade:

fazei-me nisto a vontade

de um passarinho me dar,

e não o deveis negar,

que espero não concedais,

pois é dia, em que deitais

passarinhos a voar.

Outro poema anticlerical:

Verdades direi como água,

porque todos entendais

os ladinos, e os boçais

a Musa praguejadora.

Entendeis-me agora?

Permiti, minha formosa,

que esta prosa envolta em verso

de um Poeta tão perverso

se consagre a vosso pé,

pois rendido à vossa fé

sou já Poeta converso

Mas amo por amar, que é liberdade.

Gregório faz critica veemente de costumes:

A cada canto um grande conselheiro,

Que nos quer governar a cabana, e vinha,

Não sabem governar sua cozinha,

E podem governar o mundo inteiro.

…………………………………………….

Muitos Mulatos desavergonhados,

Trazidos pelos pés os homens nobres,

Posta nas palmas toda a picardia.

Estupendas usuras nos mercados,

Todos, os que não furtam, muito pobres,

E eis aqui a cidade da Bahia.

Mordacidade de Gregório neste outro excerto:

Uma cidade tão nobre,

uma gente tão honrada

veja-se um dia louvada

desde o mais rico ao mais pobre:

Cada pessoa o seu cobre,

mas se o diabo me atiça,

que indo a fazer-lhe justiça,

algum saia a justiçar,

não me poderão negar,

que por direito, e por Lei

esta é a justiça, que manda El-Rei.

0 Fidalgo de solar

se dá por envergonhado

de um tostão pedir prestado

para o ventre sustentar:

diz, que antes o que furtar

por manter a negra honra,

que passar pela desonra,

de que Ihe neguem talvez;

mas se o virdes nas galés

com honras de Vice-Rei,

esta é a justiça, que manda El-Rei.

 

A Donzela embiocada

mal trajada, e mal comida,

antes quer na sua vida

ter saia, que ser honrada:

à pública amancebada

por manter a negra honrinha,

e se Iho sabe a vizinha,

e Iho ouve a clerezia

dão com ela na enxovia,

e paga a pena da lei:

esta é a justiça, que manda El-Rei.

 

A casada com adorno

e o Marido mal vestido,

crede, que este mal Marido

penteia monho de corno:

se disser pelo contorno,

que se sofre a Fr. Tomás,

por manter a honra o faz,

esperai pela pancada,

que com carocha pintada

de Angola há de ser Visrei:

esta é a justiça, que manda El-Rei.

Os Letrados Peralvilhos

citando o mesmo Doutor

a fazer de Réu, o Autor

comem de ambos os carrilhos:

se se diz pelos corrilhos

sua prevaricação,

a desculpa, que lhe dão,

é a honra de seus parentes

e entonces os requerentes,

fogem desta infame grei:

esta é a justiça, que manda El-Rei.

 

O Clérigo julgador,

que as causas julga sem pejo,

não reparando, que eu vejo,

que erra a Lei, e erra o Doutor:

quando vêem de Monsenhor

a Sentença Revogada

por saber, que foi comprada

pelo jimbo, ou pelo abraço,

responde o Juiz madraço,

minha honra é minha Lei:

esta é a justiça, que manda El-Rei.

……………………………………………………

A viúva autorizada,

que não possui um vintém,

porque o Marido de bem

deixou a casa empenhada:

ali vai a fradalhada,

qual formiga em correição,

dizendo, que à casa vão

manter honra da casa,

se a virdes arder em brasa,

que ardeu a honra entendei:

esta é a justiça, que manda EL-Rei.

…………………………………….

Se virdes um Dom Abade

sobre o púlpito cioso,

não Ihe chameis Religioso,

chamai-lhe embora de Frade:

e se o tal Paternidade

rouba as rendas do Convento

para acudir ao sustento

da puta, como da peita,

com que livra da suspeita

do Geral, do Viso-Rei:

esta é a justiça, que manda El-Rei.

Delicioso o poema Mote, onde trata com picardia a sombra da estruturação de poder da Bahia da época, sob a regência do arquétipo do trickster.

De dois ffs se compõe

Esta cidade a meu ver

Um furtar, outro foder.

Recopilou-se o direito,

e quem o recopilou

com dois ffs o explicou

por estar feito, e bem feito:

por bem digesto, e colheito

só com dois ff o expõe,

e assim quem os olhos põe

no trato, que aqui se encerra,

há de dizer, que esta terra

 

De dois ffs se compõe.

Se de dois ffs composta

está a nossa Bahia,

errada a ortografia

a grande dano está posta:

eu quero fazer aposta,

e quero um tostão perder,

que isso a há de perverter,

se o furtar e o foder bem

não são os ffs que tem

Esta cidade a meu ver.

 

Provo a conjetura já

prontamente como um brinco:

Bahia tem letras cinco

que são B-A-H-I-A:

logo ninguém me dirá

 

que dois ffs chega a ter,

pois nenhum contém sequer,

salvo se em boa verdade

são os ffs da cidade

um furtar, outro foder.

 

Um poema mais conhecido onde também denuncia com eximia perícia os desmandos do governo da Bahia, onde o espírito mercurial traz críticas que atendem o desejo popular e que, se transportado para os dias de hoje, nos faz perceber que nada parece ter mudado no âmbito do poder.

Que falta nesta cidade?……………………………….Verdade

Que mais por sua desonra……………………………Honra

Falta mais que se lhe ponha………………………….Vergonha.

 

O demo a viver se exponha, por mais que a

fama a exalta, numa cidade, onde falta

Verdade, Honra, Vergonha.

 

Quem a pôs neste socrócio?………………………….Negócio

Quem causa tal perdição?……………………………..Ambição

E o maior desta loucura?………………………………Usura.

 

Notável desventura

de um povo néscio, e sandeu, que não sabe, que o perdeu

Negócio, Ambição, Usura.

 

Quais são os seus doces objetos?………………………….Pretos

Tem outros bens mais maciços?…………………………….Mestiços

Quais destes lhe são mais gratos? ………………………….Mulatos.

 

Dou ao demo os insensatos,

dou ao demo a gente asnal, que estima por cabedal

Pretos, Mestiços, Mulatos.

 

Quem faz os círios mesquinhos?………………………..Meirinhos

Quem faz as farinhas tardas?…………………………….Guardas

Quem as tem nos aposentos?…………………………….Sargentos.

 

Os círios lá vêm aos centos,

e a terra fica esfaimando, porque os vão atravessando

Meirinhos, Guardas, Sargentos,

 

E que justiça a resguarda? ………………………………Bastarda

É grátis distribuída?………………………………………….Vendida

Quem tem, que a todos assusta?……………………….Injusta.

 

Valha-nos Deus, o que custa, o que El-Rei

nos dá de graça, que anda a justiça na praça

Bastarda, Vendida, Injusta.

Que vai pela clerezia?……………………………………….Simonia

E pelo membros da Igreja?…………………………………Inveja

Cuidei, que mais se lhe punha?…………………………….Unha.

Sazonada caramunha! enfim que na Santa

Sé o que se pratica, é

Simonia, Inveja, Unha.

 

E nos Frades há manqueiras?……………………………..Freiras

Em que ocupam os serões?………………………………..Sermões

Não se ocupam em disputas?………………………………Putas.

 

Com palavras dissolutas me concluís na

verdade, que as lidas todas de um Frade

são Freiras, Sermões, e Putas.

 

O açúcar já se acabou?………………………………………Baixou

E o dinheiro se extinguiu?………………………………….Subiu

Logo já convalesceu?…………………………………………Morreu.

 

À Bahia aconteceu

o que a um doente acontece,

cai na cama, o mal lhe cresce,

Baixou, Subiu, e Morreu.

 

A Câmara não acode?………………………………………Não pode

Pois não tem todo o poder?………………………………Não quer

É que o governo convence?……………………………..Não vence.

Quem haverá que tal pense,

que uma Câmara tão nobre

por ver-se mísera, e pobre

Não pode, não quer, não vence,

 

Gregório por Gregório:

Quando escrevo para todos

que não falo em cultos modos,

mas em frase corriqueira.

Os doutos estão nos cantos

os ignorantes na Praça

Eu não me quero emendar,

pois faço versos em rimas,

e às unhadas os sujeito

de quem os corta, e belisca.

Assim pode-se observar nestes excertos de seus poemas, elementos onde é possível distinguir características constitutivas da alma brasileira enunciados por e em Gregório: sensualidade, erotismo, jocosidade, sátira, obscenidade, picardia, irreverência, malandragem, sugestões da forte presença estruturadora do arquétipo do trickster na cultura brasileira.

É significativo que um dos primeiros escritores brasileiros importantes, tanto para Candido como para Campos, possua um forte traço trickster. Isso, por si mesmo, já diz algo sobre uma das raízes da cultura brasileira ora mais consciente, ora não.

Como último comentário sobre o poeta, reza a lenda que em seus últimos momentos próximos à morte o poeta teria solicitado a presença de dois clérigos em sua casa para a extrema-unção. Quando chegaram pediu que cada um ficasse de um lado da cama. Assim morreu, fazendo-se representar a si mesmo como Jesus Cristo que não poderia ser crucificado sem a presença de dois ladrões!!

Referências Bibliográficas

CAMPOS, H. – O seqüestro do Barroco na formação da literatura brasileira: o caso Gregório de Mattos”

CANDIDO, A. – A Iniciação à Literatura Brasileira, 5ª ed. Ed. Ouro sobre Azul, 2007

JUNG, C.G. – Obras Completas de C.G. Jung, Ed. Vozes, vol 9 i – Sobre a

Psicologia da Figura do Trickster, (1954)

TANNEN, S. R. – The Female Trickster – the mask that reveals – Routledge Ed., 2008; http://pt.wikipedia.org/wiki/Greg%C3%B3rio_de_Matos,  acesso em agosto 2010

O autor, Rubens Bragarnich é Psicólogo Clínico, editor assistente do periódico Cadernos Junguianos da AJB, analista didata do Instituto Junguiano de São Paulo, filiado a  Associação Junguiana do Brasil (AJB), filiada a IAAP.