O encontro com a vida a partir da morte

Autor: Susane Maria Curra

Palavras-chave: Individuação, Eros, Morte, Relacionamento, Amor.

O tema relacionamento mobiliza minha atenção desde sempre,  e quanto mais reflito sobre ele, mais tenho necessidade de aprofundar-me nesse terreno misterioso, encantador e, ao mesmo tempo, obscuro. Sim, obscuro, pois a possibilidade do encontro  constela  também  o  paradoxo  do desconhecido  dentro  e  fora  de  nós.   Nesse  tangenciar  de  mundos ocorrem  o   desvelamento  de nossos anseios, expectativas e temores.

Sentindo-me fisgada pelo tema, a primeira questão a ser levantada é a de saber “quem é o outro com o qual quero me relacionar.” Como este outro, que não conheço, pode estar carregado de tanta libido a ponto de mobilizar-me dessa forma e acompanhar-me com esta força por toda uma vida. O “outro” são muitos outros, que nos  acometem ao longo da  existência e que, em diferentes momentos, traduzem nossas mais íntimas necessidades e  nossos  mais  secretos  desejos.

Ao longo de minha trajetória profissional, trabalhei vários anos com grupos sobre “relacionamentos”, a partir de contos de fada. Esse é um tema mítico, arquetípico, pois em qualquer tempo e lugar emergem   contos,  na  sua  maioria dentro  de uma  tradição  oral, revelando a  eterna   busca do outro. Relacionar-se, encontrar a pessoa amada, mobiliza os seres humanos, movimenta a economia. Se abrirmos qualquer revista, encontraremos artigos que falam sobre essa temática e da felicidade associada ao encontro com o parceiro ideal. Percebo ser  este   um tema que, em geral, mobiliza mais as mulheres  que os homens. Ambos pensam e vivem, a partir de lugares diferentes, a arte do encontro, seja ela com um objeto interno ou externo à psique.

O Amor, os relacionamentos, o encontro do ser amado estão presentes em todas as classes sociais e em   todas  as culturas. Talvez a diferença entre os diversos perfis humanos se  expresse no fato de que alguns simplesmente vivem encontros sem se questionarem sobre o processo que está sendo vivido,  enquanto outros sentem a necessidade de ler sobre o tema, questionar-se   sobre o significado das diferentes formas de relacionamento. Há ainda os que apenas intelectualizam sobre a arte de relacionar-se e vivem em uma redoma, protegidos do efeito transformador que isso  pode lhes trazer.

Dentro  do  tema  da  Alteridade,   precisamos do outro para saber de nós, uma  vez que  a formação da consciência, a percepção de si, é conquistada a partir da interlocução e espelhamento com e no outro. Portanto, relacionamentos não são apenas formas de se atingir uma satisfação pessoal, mas uma  necessidade  arquetípica  para a expansão da consciência.

 Neste momento de minha vida, quando pensei na escolha do tema para este artigo, pulsou muito forte o desejo de, mais uma vez e renovadamente, envolver-me com essa temática.

Sincronicamente, chegou-me  as  mãos   o filme Hanami, Cerejeiras em Flor, da diretora alemã, Dóris Dörrie. Trata-se  de uma história sensível que nos faz mergulhar em questões profundas sobre o  sentido da vida e na qual o  processo de individuação é caracteriza-se  numa relação de casamento.

Vejamos  o  conteúdo do  filme:

Em uma das primeiras cenas aparece Trudi, esposa de Rudi, casal protagonista, no momento em que recebe a notícia de que seu marido está com uma doença terminal. Não tendo mais nada a fazer, os médicos questionam a validade de colocá-lo a par de seu diagnóstico e sugerem que eles  viajem, como uma forma de tornar a vida mais suave neste momento de intensa dor. Trudi vê-se frente a uma situação inusitada, sentindo seus alicerces ruírem. Porém, como sempre fez, pensa nele, o que seria melhor para este homem, com o qual decidiu viver sua vida,  mesmo tendo que abandonar alguns de seus sonhos para ficar ao seu lado.

Rudi é um homem comum, por volta de seus 70 anos, prestes a se aposentar. Trabalha em uma empresa de reciclagem de detritos, em uma pequena cidade do interior da Alemanha, tendo uma vida constante e organizada. Seus horários, hábitos, alimentação rotineiramente repetem-se; não gosta de sair de casa para o lazer e leva para o trabalho todo dia o mesmo lanche preparado pela esposa, que inclui uma maçã, repetindo sua máxima de que “uma maçã por dia traz saúde e alegria”.

Trudi, por sua vez, gostaria de ter sido bailarina de Butoh -  Dança que surgiu no pós-guerra, que mistura o teatro tradicional japonês e a mímica. “Dança com a sombra” – atividade que iniciou antes de casar-se e da qual abriu mão em função do casamento. Tiveram três filhos que moram em outras cidades e com os quais têm contatos esporádicos por telefone. Sonha em conhecer o Japão, país onde mora seu filho mais moço e ver de perto o  Monte Fuji. A cultura japonesa, assim como sua dança, tem um significado especial para ela. Sempre que tenta motivar Rudi para viajarem ouve como resposta que depois de sua aposentadoria poderão fazê-lo e que o Monte Fuji é igual a todos os outros.

Aceitou esta realidade até o momento, acatando a decisão do marido. Protela seus sonhos em função dos limites dele. Casal, homem e mulher, razão e afeto, pragmatismo e sentimentos. Porém neste momento, frente à realidade derradeira, Trudi vê balançar seu projeto de vida. Além de ter renunciado a  suas realizações pessoais para manter a harmonia do casamento, agora sabe que vai perder seu companheiro. Sente que não conseguirá viver sem ele.

Nota-se, nela, uma mudança de comportamento. Embora de forma muito suave, persuade o marido a  realizarem juntos alguns de seus projetos que sempre ficaram para serem vividos no futuro. O futuro havia chegado. O casal viaja a Berlim, cidade onde moram dois filhos e os netos. Nesse reencontro, destaca-se uma  enorme distância afetiva, a ponto de pais e filhos não se reconhecerem mais. Não há mais lugar para eles, casal, em suas vidas. No entanto ela não desiste de experienciar aquele momento e  busca viver o que sempre foi protelado, mas que continuava movimentando sua alma. Mesmo sob os protestos de Rudi e com as dificuldades encontradas junto aos filhos, que estranhavam muito recebê-los em suas casas, ela se permite ficar. Vai ao teatro assistir a um espetáculo de dança, aquela mesma dança que sempre embalou silenciosamente sua alma. Vai à praia, contempla o mar e deixa-se embalar pelas ondas. Até esse momento, parece que decidiu simplesmente viver e guardar para si o segredo sobre a saúde de Rudi, mesmo estando extremamente condoída com a realidade. Numa manhã, quando tenta acordá-la, Rudi percebe que está morta.

Farei um corte na narrativa do filme neste momento. Quero poder pensar sobre essa relação a partir do ponto de vista “da personagem”, embora trazendo, paralelamente, a trajetória dele, pois masculino e feminino se complementam. Abordar um aspecto traz a necessidade de elucidar o outro. Penso que esse episódio instiga o  espectador a refletir sobre  que foi o casamento para ela, Trudi. Uma mulher que trouxe na alma a sensibilidade da dança que não foi vivida enquanto profissão, mas enquanto pano de fundo de uma vida de esposa, mãe de família, em uma cidade pequena.

Proponho que iniciemos olhando para este casamento, através da cortina externa, que é a da relação de fato do casal, desencadeada pelo filme e procuremos encontrar o processo que está por trás, silencioso, que levou esta mulher a fazer suas escolhas na vida. Casou com um homem, que aparentemente tinha objetivos de vida diversos dos seus, manteve-se até o final da vida com ele. Transmite que verdadeiramente o amou. Questiono a quais processos psíquicos serviram esta união, pois o filme, no meu entender, transmite uma evolução de individuação na vida de Trudi.

Segundo C.G.Jung, o processo de individuação é a percepção consciente da realidade própria e singular de uma pessoa, abrangendo potencialidades e limitações, a partir da orientação do Si-mesmo – Arquétipo central e orientador da psique – Self. É a finalidade da vida de cada um. De acordo com a abordagem da psicologia profunda, o próprio desenvolvimento da consciência, olhado sob o ponto de vista do desenvolvimento da humanidade, acontece a partir da diferenciação de aspectos do inconsciente. Portanto, para que haja a possibilidade do desenvolvimento da consciência, é essencial o reconhecimento de si, a partir da própria identidade e diferenciação com o  outro. É igualmente fundamental o reconhecimento consciente dos elementos formadores da psique que a orientam a consciência, a partir do inconsciente.

Voltemos à nossa questão inicial que indaga sobre o poder de atração de Eros na formação de casais. Buscando compreender Eros e seu papel no desenvolvimento da vida, encontramos em Hesíodo, sec.VIII A.C., que no início da formação do universo era o Káos. Uma massa primeva que traz em si todas as possibilidades indiferenciadas. A partir deste vazio essencial, fez-se Gaia, a  Terra.  Logo veio o Tártaro, um deus invisível que representa o mundo dos mortos. Neste momento surge a Morte como um elemento essencial  para o surgimento da vida. Morte e Vida andam juntas, fazem parte de um mesmo ciclo.  Só então surge Eros.

Eros é   um dos primeiros deuses a surgir no início dos tempos. É o responsável pela união amorosa de todos os seres. É o que possibilita a criação de tudo o que há no universo. Seu poder é avassalador. É a força cósmica da fecundação e multiplicação, inspirando a simpatia entre os seres para que se unam e procriem. É essencial para que haja vida. Não há vida sem Eros.

Além da cultura grega, todas as outras tradições da antiguidade também buscam trazer explicações sobre a origem do universo e o surgimento da humanidade, como os mitos persas, o Xamanismo, a Alquimia, o  Talmude, o   Gênesis e  a  tradição  oral  dos  povos.

O mito de criação grego, conta que, no início, o humano era um ser esférico, hermafrodita, sendo, pois completo. Esses seres primevos, sendo completos, passaram a sentir-se tão poderosos quanto os deuses e a desafiá-los. Os deuses decidiram, então, separá-los em dois. Enfraquecidos, uma vez que haviam perdido suas metades, passaram a buscar incessantemente seus pares, na tentativa de voltarem  à forma original e, consequentemente, à  sua completude.

No livro, Os Parceiros Invisíveis, John Sanford (1986), nos fala da origem do homem, a partir da cultura judaico-cristã. Refere que  no  livro  do  Gênesis,  Deus era um ser andrógino e que fez o homem a sua imagem e semelhança e o chamou de Adão. Mais tarde, quando criou a mulher, fez com que Adão dormisse profundamente e criou Eva, a partir de sua costela. Inicialmente o homem era macho e fêmea e, somente  a  partir da diferenciação da mulher, é que surge o homem como macho.  No segundo capítulo do livro do Gênesis, surge a possibilidade da união, reencontro entre o homem e a mulher, buscando, assim, um retorno à origem e ao arquétipo do casamento, sugerindo um reencontro com a completude perdida. Lê-se: “o homem deixa pai e mãe e une-se à sua mulher, e eles tornam-se um só corpo”. Conclui-se que é  a partir da separação ou criação de Eva, da diferenciação do segundo a partir do Uno, que surge a necessidade de Eros, enquanto força de união entre os seres.

Jung (1972, p.203) também nos fala de polaridades, masculino / feminino, na formação da personalidade dos indivíduos. Traz o conceito de anima e animus enquanto arquétipos formadores da psique. Os Arquétipos formam a base do comportamento instintivo, não-intelectualizado. Eles são comuns a toda espécie humana e se apresentam à consciência de forma  inequívoca. No inconsciente de cada homem, há um complementar feminino, que Jung nomeou de anima, e no inconsciente de cada mulher, há um complementar masculino, nomeado animus. Para Jung, os conceitos de anima e animus  explicam uma ampla variedade de fatos psíquicos e formam uma hipótese confirmada pela evidencia empírica.

A psicologia analítica nos fala da necessidade de um mergulho no inconsciente, na busca de integração de aspectos que estão separados da consciência e que aparecem nos mitos ou contos de fada como um adormecimento ou descida ao Hades. Eva  surge  a  partir  do  sono profundo  de  Adão.

A separação precede  o  encontro.  No  mito  do  Jardim  do  Éden,  Adão  e  Eva  são  expulsos,  e  o  gênero  humano    passa  a  vida  inteira  em  busca  dessa  unidade  perdida. É a partir da diferenciação e da consciência da incompletude, que surge Eros. Portanto, Eros está na base da formação da consciência, assim como a Morte/rompimento.

Recentemente no filme, Mulher Invisível, do diretor brasileiro, Cláudio Torres, encontramos uma forma bem-humorada de retratar a possível relação do homem com sua anima, assim como os múltiplos enganos que surgem, a partir de sua literalidade. O protagonista é abandonado por sua esposa, na qual havia projetado seu ideal de feminino, deprime-se fazendo um mergulho no seu inconsciente e, progressivamente, passa a reconhecer que pode sentir-se completo, na medida em que reconhece sua anima, agora não mais projetada, mas como função interna de relação. Somente a partir dessa evolução, é que pode fazer nova parceria, agora com uma mulher real. Só o conhecimento de  nossa própria inteireza torna possível reconhecer o outro. Logo, há a possibilidade de acontecer um relacionamento.

No filme Hanami, Cerejeiras em flor, quando a esposa morre, Rudi vivifica o mito grego de criação, em que perde sua metade. Passa a buscar sua condição de ser relacional, a partir do mundo interno, de sua alma e, para tal, encontra a dança – Butoh – como caminho. Tenta valorizar e compreender os valores de Trudi, que até então eram ignorados por ele. É a morte física da esposa que desencadeia em Rudi a necessidade de sua individuação. 

Voltando  agora  para Trudi, colocamos  a  seguinte  questão: “Em que medida fez seu processo de individuação?” Viveu uma vida aparentemente pacata, cumprindo um papel esperado para mulheres do seu tempo, desempenhando sua função de esposa e mãe. Seus filhos são adultos, vivendo suas vidas e seu casamento perdurou.

Trudi, apesar de estar vivendo um momento de vida crucial, transmite no olhar, uma profundidade que permite ver sua alma. Ela está inteira em cada gesto, em cada atitude. Cada decisão sua é muito sentida, muito sofrida. Ela chora e também sorri. Percebe-se que há um profundo amor e gratidão pela vida. Mesmo no contato com seus filhos e netos, que da parte deles é frio, quase indiferente, consegue manter-se íntegra e amorosa. Seu amor vai além daquele momento, pois é um amor de alguém que já perdeu e ganhou muito com a vida e que consegue viver cada instante como uma dádiva. Para pensarmos em seu processo de individuação, há necessidade de refletirmos sobre  Amor, Morte, e Tempo. 

O amor transpõe a atração inicial que aproxima as pessoas. Pressupõe que haja reconhecimento de si e do outro, morte das vaidades pessoais e das idealizações. Requer desenvolvimento de consciência e confiança, assim como a compreensão do significado de Tempo/Kairós. Esse processo exige a capacidade de pressentir novos caminhos e de aprendê-los, a tenacidade necessária para atravessar uma fase difícil e a paciência para apreender o amor profundo, com o tempo. Por isso diz-se que, para que haja um amor verdadeiro, há necessidade de esse sentimento ser precedido pelo processo de individuação. O desenvolvimento feminino espiritual se dá através do amor. O amor pelo outro e o amor por si mesma. O amor é o elemento essencial da individuação feminina.

É no encontro com Eros que a mulher pode desenvolver-se enquanto mulher e, ao mesmo tempo, é a partir desse desenvolvimento que ela torna-se capaz de amar. Eros e a individuação andam juntos e dependem um do outro. Amor é a própria capacidade de relacionamento. É Eros que aproxima as pessoas  e permite que elas  possam aprender a conviver com as diferenças. É Eros que dá  o tempo suficiente, para que cada um se reconheça como ser único e continue com vontade de partilhar sua vida com outro, que também é único.

Trudi transmite amor, aceitação das diversidades e ternura nas relações. Há uma gratificação que vai além da identidade e da obtenção de seus prazeres. Há aceitação das diferenças, sofrimento por elas sim, pois se há amor há também sofrimento. Vê-se que ela, ao longo do tempo, desenvolveu qualidades como a capacidade de discriminar e fazer escolhas com objetividade, a partir do coração. Não funciona somente pelo impulso, mas sim, a partir de uma reflexão afetiva. Encontra seu próprio rumo frente à diversidade do universo masculino de uma forma feminina. Enfrenta os desafios da vida conjugal com criatividade e mantém uma relação que abrigou Eros até o final, sustentando o fluxo da vida. Sabe de seus limites, mais uma vez depara-se com uma imposição da vida que vai além de sua escolha, mas continua alimentando sua alma criativamente.

O relacionamento que permanece e que contribui para o desenvolvimento individual é aquele que se permite transformar, morrer, a cada necessidade de mudança, abrindo espaço para que o novo surja. Por outro lado, a fragilidade em encarar a morte/transformação ou modificações inerentes ao crescimento individual ou relacional provoca o fracasso de muitas uniões. Quando a natureza de vida e morte é reprimida numa pessoa ou num relacionamento, há uma estagnação da libido. O amor deixa de ser possível.

Erich Neumann (1971, p.91) coloca que uma das questões mais difíceis para as mulheres no processo de individuação é a sua tendência para cuidar do outro, perdendo o foco  de sua evolução interna. Nas relações de casamento, tendem entrar em uma participation mystique - estado de diminuição do nível da consciência –  na relação com o parceiro externo, negligenciando as necessidades de seu ser mais profundo. Mantém o casamento de fato e rompem com o casamento interior, sob o risco de perderem sua identidade como casal. Esta é uma armadilha, pois, na medida em que a mulher rompe com sua unidade interna, também não consegue manter o amor.  A traição de si mesma representa a perda da alma.

Observa-se que Trudi, quando se percebe frente à morte iminente de Rudi, busca realizar seus sonhos, mesmo tendo que enfrentar muitas vezes o mau humor e as reclamações constantes do marido. Sua atitude favorece para que ele também possa usufruir situações que por si só não buscaria. É sua contribuição para o casamento e desenvolvimento do seu companheiro. Há uma confirmação do amor do casal. Há cuidado de ambos pelo parceiro. Trudi sabe o que é essencial, sabe do que precisa e vai em busca.  Não se perde na animosidade das outras pessoas e segue alimentando sua alma. Não se assusta com a morte, embora sofra com ela. Parece ser uma pessoa que já viveu muitas mortes ao longo da vida. Conhece a dança da vida com a morte, pois Eros e Thanatos andam juntos.

Sem a morte/transformação, sem a percepção clara de nossos limites, do inexorável fim dos ciclos, não pode haver um real conhecimento da vida e, sem esse conhecimento, não pode haver fidelidade, devoção ou um amor verdadeiro. Amar significa ficar com. Emergir de um mundo de fantasias para outro, em que o amor duradouro é possível.

No livro Mulheres que correm com os Lobos, Clarissa Pinkola Estes (1995, p.167) cita: “… as histórias das regiões próximas ao pólo descrevem o amor como a união entre dois seres cuja força reunida permite a um deles, ou a ambos, a entrada em comunicação com o mundo da alma e a participação no destino como uma dança com a vida e a morte”.

Pensemos em Trudi, aqui, representando um processo de todas as mulheres, um desenvolvimento do feminino. O processo de individuação, como já vimos, acontece no plano pessoal e pode ser desenvolvido na relação de casamento. Para a mulher, a experiência feminina do encontro é o pressuposto para a individuação.

Porém, para que ocorra a possibilidade do amor, há necessidade de que o casal possa conviver e suportar vários processos de nascimento e morte, de desejo e frustração, que exigem tempo interno de maturação e reflexão.  O amor em sua plenitude constela mortes e renascimentos. A paixão morre e volta, a dor vai e retorna posteriormente. Amar significa abraçar e, ao mesmo tempo, suportar inúmeros finais e inúmeros recomeços, todos no mesmo relacionamento. Porém a individuação de cada um dá-se em tempos diferentes e pode, muitas vezes, significar motivo de desarmonia e conflitos no casamento.

No momento que começa a acontecer a morte das ilusões acerca do amor, isto é, o recolhimento das projeções, o relacionamento torna-se mais desafiador, pois vai exigir inteireza da mulher e toda sua experiência e habilidades. Fugir deste processo significa, além de medo da intimidade e do envolvimento, uma negação ao processo cíclico e natural de vida e morte.

No mito sumério de Inana, citado por Sylvia B. Perera (1985), encontramos um modelo feminino em que  a mulher, tendo sua própria posição, mantém seus valores  e relaciona-se, amorosamente, com o masculino, bem como diretamente com suas próprias profundezas. É o modelo de mulher que está disposta a sofrer, humana e pessoalmente, a amplitude total.

 Aldo Carotenuto (2004), nos traz a compreensão de que, para que haja vida, é necessário haver traição/ruptura de padrões conservadores, dando lugar ao novo, a criação. Este autor chama de traição o que estamos chamando de morte. Sem traição/morte, não há evolução.

Em Amor e Psique, que nos fala da busca do amor pela alma feminina, Erich Neumann (1971), coloca que todo casamento é um rapto de Core, em que o macho é hostil e violador. Este olhar é básico, dentro da psicologia feminina matriarcal. A aproximação do masculino significa uma separação da identidade feminina primeira.

Como vemos, a possibilidade do relacionamento amoroso traz à mulher uma sucessão de traições, a começar pela traição ao matriarcado. Na medida em que a mulher se dispõe a integrar seu animus, está deixando que morram valores absolutos de sustentação de sua identidade anterior. Há uma saída da escuridão do inconsciente, na medida em que há uma valorização e aceitação do masculino, enquanto processo interno. Nesse momento da relação, há um encantamento pelo outro e o perigo de a  mulher ficar aprisionada ao mundo do masculino. Assim, ela pode anular  sua natureza e  viver em função do outro, seja ele interno ou externo.

Somente num terceiro momento é que pode haver espaço para uma relação verdadeira. Para a mulher que está disposta a viver uma relação de casamento como um processo de individuação, esta união deixa de ser um rapto, mas a aceitação da mulher a Eros. Ele  a seduziu e se apoderou dela, a partir do interior e não mais como homem externo. Ao mesmo tempo, esta união, enquanto entrega voluntária ao amor, é experimentada pela mulher como perda e sacrifício e também como morte e renascimento. Ela alicerça uma nova percepção de si, a partir da integração dessa nova consciência. É o tempo em que o companheiro passa a ser visto não mais com atributos divinos, mas com a plenitude dos paradoxos do humano.

A história de Trudi representa, portanto, o momento trágico, no qual  toda alma feminina  assume seu próprio destino. Significa, conforme a psicologia profunda de C.G.Jung, a perda do estado paradisíaco. A tomada de consciência do sacrifício necessário, experienciado como traição/morte é que  possibilita o nascimento do amor humano. Consciência é a separação que dá espaço para a relação. Dentro da trajetória do desenvolvimento do feminino, essa conquista se dá através do estabelecimento de um contato fecundo entre o masculino e o feminino. É um ato heroico vivido de forma feminina.

BIBLIOGRAFIA

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 SANFORD, John A. Os Parceiros invisíveis, 4.ed. São Paulo, SP: Paulinas, 1986.

A Mulher Invisível. Direção: Cláudio Torres. Brasil.Warner Home Vídeo. 2009. 1 bobina cinematográfica (105min).son.,color.

Kirschbluten, Hanami. Direção e Roteiro:  Doris Dorrie. Produção: Harald Kugler e Molly Von Furstenberg.  Alemanha / França. Produtora: Olga Film GmbH. , 2008, 1 bobina cinematográfica (126 min). Son., color., 35mm.

A autora, Susane Maria Curra  é psicóloga formada pela UFRGS em 1980 – CRP 07/1652. Especialista em Psicologia Clínica e Psicologia Jurídica. Especializanda em Psicologia Clínica Junguiana.