Digressões acerca da idéia da compreensão

Autor: Rubens Bragarnich

Apresentado na seção Temas Livres do XI Simpósio Internacional da Associação Junguiana do Brasil, realizado em 2003

Objetivo: Esta reflexão tem a intenção de estabelecer inicialmente alguns fundamentos epistemológicos da Psicologia Analítica, a partir da investigação etimológica e da contribuição de Dilthey, para então relacioná-los a experiência vívida da prática clínica.

Diz-se da Psicologia Analítica que ela é uma psicologia de compreensão, diferente da Psicanálise e Ciências Exatas e Biológicas, que seriam ciências de explicação, dentro da perspectiva do filósofo alemão Wilhelm Dilthey (1833-1911). As ciências de explicação operam dentro do paradigma causa-e-efeito, o que nos responderia ao “porquê” de um fenômeno dado.

Seguindo R.A. Lockhart (sobre o que se encerra no interior de uma palavra), “o significado e definição usual é muito freqüentemente só a casca de uma palavra; nós as usamos, mas não conhecemos a sua alma. Somos todos abusadores verbais. Aquilo que possa ajudar a nos libertar da prisão do significado atual, da literalidade e velocidade do momento, nos ajudará a libertar a Psique da sua casca aprisionante”. Daí a importância da Etimologia. Cavoucando as raízes etimológicas da palavra Explicação, formado pelo prefixo ex com idéia de saída, de conclusão, acabamento, mais o verbo plicare (dobrar, enroscar) obtemos Explicatio, que nos traz:

  1. ação de desdobrar, desenrolar, extender, desenfardar;
  2. esclarecimento e interpretação;
  3. expor pormenorizadamente, narrando;
  4. desembaraçar, livrar, acabar, terminar, concluir.

Aqui encontramos a noção de que num fenômeno dado, as causas elementares já se encontram presentes enroladas, dobradas, enfardadas ou embaraçadas e assim necessitam serem abertas, expostas, localizadas. Desta maneira, as causas são identificadas e definidas como as geradoras e responsáveis pela ocorrência do evento, ou seja, o seu efeito, ficando o encadeamento causal completamente esclarecido e a inteligibilidade do evento assegurada. Assim a explicação funciona para determinar competentemente as causas e os efeitos objetivados, meio preferencial do chamado método científico e que corresponderia, no olhar junguiano, ao âmbito do mundo do Espírito.

Já o conhecimento obtido nas ciências da compreensão, os nexos causais não são suficientes para atender a elucidação do fenômeno, pois há um emaranhado de possibilidades misteriosas que necessitam uma busca de significados ocultos para que se torne possível a sua clarificação. Responde a pergunta “quê” e ao “para quê”, se originando no mundo da Alma.
Nas suas raízes latinas, compreender é formada pela aglutinação do prefixo com mais o verbo prehendere ou praehendere, formando o vocábulo comprehendere ou compraehendere, que basicamente significa:

  1. com as mãos agarrar, prender, tomar ou apoderar-se de, pegar;
  2. apanhar em flagrante, surpreender;
  3. então tomar conjuntamente, pelo todo, abrangentemente; ainda atar juntamente, ligando;Há também a acepção:
  4. tomar pela raiz, na base;Ainda:
  5. conceber um bebe.

Portanto, dar a luz, trazer a luz, o que significa “sacar”, ter um insight.

A compreensão envolve assim um agarrar psíquico, ora lento, juntando, ligando as conexões, ora surpreendendo, apoderando-se das qualidades psíquicas como um todo, atando, sintetizando, aglutinando, chegando as raízes, buscando o insight. Indo para o contexto analítico, este é em geral muito contagiante, mesclado, misturado, envolvente, constelando as vezes pouca discriminação e baixa consciência. São estes fatores emocionais e irracionais o que nos faz refletir sobre a dificuldade da real compreensão de um fenômeno psíquico. O processo transferencial é absolutamente interveniente no processo analítico. Jung nos fala da compreensão através do processo da empatia, da reintrojeçao ativa, onde o nosso sistema nervoso simpático é acionado, quando buscamos voluntariamente na subjetividade do paciente, para penetrar-lhe nas camadas mais profundas do seu funcionamento psíquico como um todo e com toda a nossa psique operando.

Agora falemos um pouco sobre a contribuição de W. Dilthey. Filósofo alemão da geração anterior de Jung, embora jamais citado por ele, criou a expressão Ciências Humanas, buscou dar-lhes um fundamento próprio, libertando-as da dominação do método das Ciências Naturais; buscou oferecer uma base epistemológica consistente para a Escola Historicista já existente mais sem chão próprio. Para isso postulou que:

  • os processos sociais, culturais e humanos são historicamente determinados;
  • a experiência é o fundamento básico da vida;
  • seres humanos são fundamentalmente expressivos p/ o mundo exterior;
  • a unidade vital psicofísica (totalidade) é o sujeito das ciências socio-históricas;
  • a compreensão é o método fundamental para a realidade socio-histórica.

Vejamos o que nos diz J.J. Clarke sobre o sistema de Dilthey: ele se baseia na experiência vivida, o que significa que fomos capazes, através do querer, sentir, imaginar, agir, de compreender o outro; só assim, ser completo que experimenta, é possível interpretar o ato do outro, tanto reproduzindo como revivendo em nós as experiências dos demais. A experiência é o fator humano comum, coletivo, meio pelo qual é possível a empatia e a compreensão, essência das ciências humanas e do entendimento. Essa tentativa de Dilthey de basear as Ciências Humanas em experiência vivida e na compreensão da expressão humana liga-se estreitamente a mesma idéia da hermenêutica. Esta arte da interpretação é basicamente o processo de desenredar o significado de alguma coisa que não está obviamente clara num texto, então ampliado para “toda esfera da expressão simbólica humana”. O método da compreensão, para Dilthey, coloca a Psicologia em companhia da História, Sociologia, Antropologia, Religião Comparada, Direito, Ciência Política e Literatura.

Transportando-nos para a pratica clinica, onde terapeuta e paciente estão imersos no processo dinâmico psicoterapico, sob fluxos e contra-fluxos de conteúdos subjetivos conscientes e inconscientes, pessoais e arquetipicos, nos perguntaríamos como seria possível, neste contexto tão emaranhado e contagiante, o analista realmente compreender o seu paciente, o seu processo psíquico e ajudá-lo a que este possa se compreender?

Ao fazermos esta necessária imersão, nos expomos propositadamente ao contágio, ao envolvimento profundo na mesma substância viva do inconsciente de ambos. Esta é uma condição ao mesmo tempo essencial e necessária, e do outro dificultadora da própria compreensão! Uma ciência explicativa talvez não exigisse este envolvimento pleno com todo o nosso psiquismo, bastaria que intelectualmente conseguíssemos desdobrar, desenrolar e estender pormenorizadamente o fenômeno.

Uma abordagem da compreensão envolve a participação integral, não especialmente a função pensamento, mas sim, toda a nossa personalidade e, portanto todas as nossas funções (sentimento, intuição, sensação e pensamento).


Bibliografia

Dilthey, W. – Introduction to the Human Sciences – Princenton University Press, 1883.

Clarke, J.J. – Em busca deJung – Indagações Históricas e Filosóficas – Ediouro, 1992.

Jung, C.G. – Obras Completas de C.G.Jung – Ed. Vozes, 1991.

Lockhart, R.A. – Coins and Psychological Change – in Soul and Money – Spring Publications, Inc. 1982

O autor, Rubens Bragarnich é psicólogo clínico, editor assistente do periódico Cadernos Junguianos da AJB, analista didata do Instituto Junguiano de São Paulo, filiado a  Associação Junguiana do Brasil (AJB), filiada a IAAP.