Amor Efêmero, Encontros Descartáveis

Autor: Silvia Graubart

 

A solidez das instituições sociais geradas no passado já não se sustenta mais. O que até então era duradouro e previsível torna-se maleável e fluído… como o curso de um rio, cujo movimento está longe de ser calmo e pré-determinado.

Refletir sobre a vivência do amor e da sexualidade neste cenário, que se afasta dos princípios de uma moral rígida e tenta encontrar sentido na revolução de códigos e valores da pós-modernidade é o objetivo desse trabalho.

Uma tentativa para aprofundar a compreensão das atitudes instantâneas, imediatistas e fugazes dos personagens que seguem o fluxo contínuo e intermitente desse rio.

Como atores de comportamentos incipientes, tanto nas suas aquisições de plástico quanto naquelas de carne, osso e sangue, a constatação de que suas almas ficam sempre à deriva me assombra.

Os novos estilos de relacionamento refletem o que a sociologia e a filosofia há tempos se propuseram estudar. À luz do que o sociólogo polonês Zygmunt Bauman propõe em sua modernidade líquida, as relações são desnutridas de qualquer interação afetiva, uma vez que nunca foi tão fácil estar com alguém sem ter o menor conhecimento ou afinidade por ela. Sob a ótica do polêmico pensador Guy Debord, crítico mordaz da vida cotidiana na França dos anos 60, vive-se, desde então, a sociedade do espetáculo: uma forma de estar no mundo em que a vida real é, inexoravelmente, pobre e fragmentária – e as pessoas são obrigadas a assistir e consumir passivamente as imagens de tudo que lhes falta em sua existência subjetiva. Para outro importante pensador francês da atualidade, Gilles Lipovetski, essa ausência passiva de comprometimento com o “outro” contempla um tempo marcado pelo vazio interior e regido pelo imperativo do gozo.

A psicologia detém seu olhar sobre esses novos paradigmas e atribui ao individualismo de uma sociedade composta por pessoas mais centradas em si mesmas, essa dificuldade de criar vínculos duradouros. As relações abreviadas, marcadas por aproximações momentâneas, têm a exata duração da afluência de demandas efêmeras, que se renovam sucessivamente: um retrato que nos remete às rápidas transformações tecnológicas do mundo globalizado.

O conceito de espetáculo proposto pelo francês Debord unifica e explica a grande diversidade de fenômenos sociais, culturais e psicológicos como simples aparência; Bauman amplia essa idéia, sugerindo que a globalização contribuiu para aumentar a polarização entre o homem, suas condições e perspectivas, e o fluxo de produtos e mensagens disponíveis nesse mundo emparedam os jovens em campos hostis, apertando as rédeas que detém sua singularidade.

Na mesma linha de raciocínio, Gilles Lipovetski sugere que no cultivo do que ele chama de self-love, a proposta não é estrangular o desejo, mas exacerbá-lo destituindo-o de culpa, aspecto que incita ainda mais a experiência de prazeres imediatos.

Determina-se assim, uma época na qual os jovens hesitam entre relacionamentos frágeis, amores líquidos, e a entrega e o desejo por relações profundas – condição ambígua que estimula anseios conflitantes de estreitar laços e, ao mesmo tempo, mantê-los frouxos. Querem o máximo de intensidade com o mínimo de compromisso.

Com a globalização estabelece-se uma cultura consumista, onde o produto está pronto para uso imediato. E os relacionamentos também estão incluídos na categoria de mercadorias obtidas sem qualquer esforço ou dedicação. Apenas examina-se o conteúdo, pesam-se os prós e contras e leva-se para casa (ou para a cama), com a cláusula incluída de que o afeto fica fora, porque se o produto falhar pode ser deixado de lado.

Além disso, sob o impacto da Internet e da comunicação de massa, a ligação entre os pares torna-se tão intercambiável quanto a liquidez das ações negociadas nas bolsas de valores. Da mesma forma, a crescente utilização de telefones celulares facilita a fluidez e o rompimento: basta que um dos interlocutores deixe cair a linha, ou não atenda ao chamado identificado na tela. E não há nada mais pós-moderno, ou hipermoderno, do que o chamado sexo virtual, não mais restrito às salas de bate-papo ou às webcams, mas já com o uso de vibradores interativos comandados através da Internet, chamados de televibradores portáteis. O sexo virtual se fortalece a partir do medo do outro; talvez ainda mais, por causa do medo do corpo do outro. Assim, com um sutil clique do mouse na tecla “delete” interrompe-se toda e qualquer possibilidade de contato.

Esses laços amorosos frágeis e insignificantes são assombrados pela ambivalência de que sempre pode haver alguém melhor para “investir” o tempo.

Tal leitura da contemporaneidade me remete ao conhecido termo “ficar”, rótulo informal para o amor efêmero e os encontros descartáveis, nos quais ver, ser visto e aparecer reduzem os jovens casais a machos e fêmeas no cio. Os pares são transitórios, os arranjos duram algumas horas, talvez dias ou minutos. Apenas o tempo do desejo saciado.

Ainda que a palavra “ficar” tenha o sentido genérico de parada e permanência, sugerindo certa fixação em algum lugar, o uso deste termo, ao contrário, designa relacionamentos episódicos e ocasionais, nos quais predomina a sensorialidade, a brevidade do contato, a ausência de exclusividade e de compromisso, a descartabilidade do outro e a não-obrigatoriedade da presença de sentimento. Os jovens tornam-se simples colecionadores de sensações.

A alternância entre os parceiros acontece tão rapidamente que os simpatizantes do “ficar” já adotam uma nova nomenclatura, mais universalizada, seguindo a lógica da globalização: muitos de vocês já devem ter ouvido o termo “serial kissers”. Pois essa é a denominação mais atual para os “ficantes”: beijadores em série, uma analogia jocosa aos “serial killers”, que sob vários aspectos não é menos perigosa se levarmos em conta não apenas o comportamento em si, mas o que pode ser observado por trás dessa atitude sob o ponto de vista físico e psicológico.

A disposição para a entrega, para o “outro” e o amor vive (ou sobrevive) sob o impacto do exagero, da aceleração e da competitividade. O excesso de oferta engole com voracidade a possibilidade de relacionamentos férteis, determinando a insignificância do instante; e a sexualidade, experimentada como mero produto de consumo, fica disponível num mercado de troca que não vai além da dimensão ilusória.

Constatar essa situação denuncia uma nova ordem social e o inevitável entrelaçamento entre indivíduo e mundo. Uma espécie de voyeurismo, que ao mesmo tempo exibe e excita, escancara e disponibiliza músculos, bocas, seios e curvas, restringindo o potencial criativo do que é visto à mera satisfação carnal. Isso compromete a fusão com os outros sentidos e impede a elaboração das fantasias indispensáveis à compreensão do que está por trás da banal conexão que se estabelece entre os pares. E do que poderia ser apreciado, sentido e vivido como metáfora para novos e mais criativos estilos de relacionamento. Os jovens vivem o absolutismo literal.

Se há quem defenda essa onda indiscriminada de prazer, afirmando que é com a experiência que se aprende, o que se apreende dessa experiência?

Tomando a solidez por referência, a liquefação dos relacionamentos tanto pode ser considerada como fragilidade, quanto como uma forma mais despojada de enfrentar o presente, uma vez que o que valia no passado, hoje já não vale mais.

Entretanto, o que se observa entre os pares são aproximações anestesiadas devido ao consumo abusivo de álcool, drogas ou a combinação de ambos. Não fosse por esse motivo, também eu não teria ressalvas ao “ficar” – essa jovial liberdade, fonte de experiências e aprendizado para a vida adulta.

Mas é fato que não são muitos os efeitos positivos desse comportamento que a prática clínica tem mostrado: gravidez indesejada e ampla disseminação de doenças sexualmente transmissíveis. Segundo dados do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 44% dos jovens bebem e utilizam bebida alcoólica antes de um ato sexual e 56% da população jovem não usa preservativo, fato determinante no dado assustador de que quase metade dos novos casos de Aids ocorre em adolescentes entre 15 e 25 anos. Esse mesmo levantamento mostra que de30 a 40% das mulheres nessa mesma faixa etária estão infectadas pelo papiloma virus, ou HPV, doença que na maioria das vezes não apresenta nenhum sintoma, mas  com o tempo pode desencadear o câncer. Do ponto de vista psicológico, as conseqüências do “ficar” não são menos desastrosas: desconhecendo o sabor da frustração, já que bocas, curvas, seios, músculos e genitais estão sempre disponíveis, os jovens perdem o medo da rejeição e a noção do auto-reconhecimento através do outro.

Rejeitar, do latim rejectare, significa fazer eco, repercutir, lançar para fora, rebater. E a falta dessa experiência inibe a capacidade de perceber que o “outro” também é livre para escolher, preferir e preterir.

As ações impetuosas que observamos com tanta freqüência são impulsos involuntários impregnados de energia inconsciente, que só ganham sentido se mediados pela reflexão. E refletir – debruçar-se sobre si mesmo – não tem sido uma atitude freqüente no universo das relações afetivas e da sexualidade entre adolescentes, adultos jovens e outros nem tanto.

Que cenário funciona como agente catalisador para esse estado de coisas? Poderíamos responsabilizar a mídia, em todas as suas manifestações, como a engrenagem capaz de disseminar essas relações insipientes, efêmeras e descartáveis?

Nas imagens erotizadas a que os jovens estão expostos cotidianamente vendem-se falsas necessidades e pseudodesejos, inspirados por corpos exuberantes e figuras estereotipadas de homens e mulheres esvaziados de sua interioridade, privados da individualidade e raízes.

Essa exibição indiscriminada – que comercializa afetividade da mesma forma que produtos para higiene íntima – faz com que as pessoas percam o mistério de tudo. Enfeitiçadas pela dinâmica do transitório, de seres reflexivos passam a autômatos de práticas descartáveis: a alteridade não conta, porque só importa o que é manifesto e visto; o afeto é desvalorizado, porque o que vale mesmo é o desempenho. Isso nos desafia em outdoors, na televisão, nas revistas, na Internet e dá seu testemunho nos consultórios, onde a máscara de falsa felicidade olhada de perto, revela nervos em frangalhos, sofrimentos, medos, solidão, insegurança, egoísmo e compulsão à repetição.

Que homens e mulheres se constroem a partir desse espetáculo?

Tentar uma compreensão na mais pura tradição junguiana me leva a recorrer aos arquétipos do inconsciente coletivo, como pré-figurações de toda experiência humana que se manifesta em imagens, contrapondo-os com as configurações modeladas pela cultura de massa – os estereótipos – ou seja, características que se referem a determinados padrões generalizados e pouco originais. Se o primeiro está diretamente relacionado à multiplicidade em cada ser individual e, portanto, acessível a partir do cultivo de alma, no outro se configuram personagens fictícios e pasteurizados – modelos contemporâneos calcados em comportamentos coletivos, que determinam a personalidade, atitudes e modos de falar de muitos.

A partir desses modelos pasteurizados estrutura-se um ego contaminado pela projeção dos diversos padrões da cultura de massa: o vazio interior é preenchido por imagens estereotipadas que permeiam a aproximação mágica entre os pares. Significa dizer, que por trás desta magia, escondem-se pessoas quase sempre inconscientes do modo como se comportam em relação aos próprios processos psíquicos internos e que essa inconsciência, além de distanciá-las desses processos é amplamente permeável às influências dos apelos coletivos vindos de fora.

O “ficar”, então, se legitima. Os jovens experimentam em projeção aquilo que não são e desenvolvem a fobia da entrega e do compromisso, autorizando uma lógica que interpreta um conjunto de valores passageiros e tenta estabelecer entre eles uma ordem que os justifique. O não envolvimento, efeito dessa projeção, funciona como vacina que os imuniza contra prováveis desencontros, que invariavelmente acontecem quando as exigências de suas verdadeiras imagens anímicas projetadas não são mais correspondidas.

Inconscientes da própria essência e empobrecidos afetivamente, muitos desses jovens optam por relacionamentos compulsivos e superficiais, que alternam a necessidade de amar e abandonar. Em sua não existência vazia, na qual um pode ser todas as coisas para o outro, vivem como verdadeiros camaleões, que se defendem dos predadores assumindo as características que o meio lhes impõe. E passam a reproduzir infinitamente tal comportamento até que uma pálida e sutil inquietação interna os desarme para um primeiro contato com suas demandas de alma.

Buscar na mitologia o pano de fundo que dá sentido às várias formas de estar no mundo é premissa básica da psicologia profunda. Associar histórias pessoais a mitos revela muito de nós, em várias etapas da vida. O mito de Ísis-Osíris, por exemplo, oferece informações e possibilidades de reflexão a respeito do “ficar”.

Quando Osíris foi assassinado e desmembrado pelo irmão Seth, Ísis saiu à procura dos pedaços desse corpo amado, esquartejado e disperso pelo Egito, juntando todas as partes, exceto o órgão sexual, que foi substituído por um falo de ouro. Osíris renasceu reconstituído em Amenti – o mundo subterrâneo análogo ao Hades grego, o lugar onde está a psique, a morada da alma. E com o falo artesanalmente construído gerou Hórus – a possibilidade de germinar o novo não-efêmero, que facilita a cada ser viver com inteireza uma relação harmoniosa de amor e cumplicidade.

A Ísis é atribuído o “poder” do renascimento, que psicologicamente significa reconhecer que a possibilidade de discriminação no mundo visível está intimamente relacionada ao contato com os mistérios do universo inconsciente. E a presença insensível de Seth, como aquele que mata e destrói, mostra que bem e mal estão sempre juntos nessa trajetória, e a existência de um está intimamente ligada à existência do outro.

Esse mito fala de mulheres que buscam no amor efêmero e nos encontros descartáveis, partes do Osíris despedaçado em cada homem com quem se relacionam; e de homens acreditando que o grande mistério de suas vidas se restringe à potência do falo de ouro, por meio do qual são estabelecidas relações assimétricas de poder e submissão. Analogamente, podemos recorrer ao mito de Iansã – o Orixá feminino que se apaixona com freqüência e na multiplicidade de parceiros transforma sua vida numa busca constante por prazer, e também, por riscos.

Podemos concluir a partir daí que quanto maior a anestesia provocada por imagens coletivas estereotipadas e superficiais, menor a possibilidade do contato com o mundo interior e com a realidade multifacetada do “outro”, cujo livre-arbítrio e seu contínuo exercício assegura a real possibilidade de arranjos amorosos fecundos.

 

Referências bibliográficas

BAUMAN, Zygmunt (2001). Modernidade Líquida. São

Paulo: Jorge Zahar

DEBORD, Guy (1997). A Sociedade do Espetáculo. Rio de

Janeiro: Contraponto

JUNG, C.G. The Colletcted Works of C.G. Jung, traduzidos

para o inglês por R.F.C. Hull, editados por H.  Reed, M.

Fordham, G. Adler e Wm McGuire,Princeton:PrincetonUniversityPress, Bollingen

Series XX, volumes I a XX, referidos pela abreviatura CW

seguida do número do volume e do parágrafo. Londres:

Routledge & Kegan Paul.

HILLMAN, James (1975). ReVisioning Psychology. New

York: Harper Collins Publishers

LIPOVETSKY, Gilles (1989). A Era do Vazio. Lisboa: Relógio

d’Água.

SPALDING, T.O. (1983). Dicionário de Mitologia Egípcia e

Outros. São Paulo: Cultrix                                                             

 

* Silvia Graubart  é psicóloga, terapeuta sexual, jornalista, analista junguiana, membro da International Association for Analytical Psychology (IAAP), membro da Associação Junguiana do Brasil (AJB).

e-mail: silvia.graubart@uol.com.br