A alma bailarina


 “Sob estas árvores ou aquelas árvores

Conduzi a dança,

Conduzi a dança, ninfas singelas

Até ao amplo gozo

Que tomais da vida. Conduzi a dança

E sê quase humanas

Com vosso gozo derramado em ritmos

Em ritmos solenes

Que vossa alegria torna maliciosos

Para nossa triste

Vida que não sabe sob as mesmas árvores

Conduzir a dança…”

 Fernando Pessoa (Ricardo Reis)

  Orunmilá traz a festa como dádiva de Olodumare

 Dizem que certa vez Orunmilá veio à Terra acompanhado dos orixás em visita a seus filhos humanos, que já povoavam este mundo, já trabalhavam e se reproduziam. Foi quando ele humildemente pediu a Olorum-Olodumare que lhe permitisse trazer aos homens algo novo, belo e ainda não imaginado, que mostrasse aos homens a grandeza e o poder do Ser Supremo. E que também mostrasse o quanto Olorum se apraz com a humanidade. Olodumare achou justo o pedido e mandou trazer a festa aos humanos. Olodumare mandou trazer aos homens a música, o ritmo, a dança. Olodumare mandou Orunmilá trazer para o Aiê os instrumentos, os tambores que os homens chamaram de ilu e batá, os atabaques que eles denominaram rum, rumpi e lê, o xequerê, o gã e o agogô e outras pequenas maravilhas musicais. Para tocar os instrumentos, Olodumare ensinou os alabês, que sabem soar os instrumentos que são a voz de Olodumare. E os enviou, instrumentos e músicos, pelas mãos de Orunmilá. Quando ele chegou à Terra, acompanhando os orixás e trazendo os presentes de Olodumare, a alegria dos humanos foi imensa. E, agradecidos, realizaram então a primeira e grande festa nesse mundo, com toda a música que chegara do Orum como uma dádiva, homens e orixás confraternizando-se com a música e dança recebidas. Desde então a música e a dança estão presentes na vida dos humanos e são uma exigência dos orixás quando eles visitam nosso mundo.

        Visitar o mundo, bailar a música do universo. Dançar a dança da alma, alma bailarina, dançarina mercurial, sem a qual a vida fica sem sentido. Dançar pelos caminhos da vida. Porque a vida pra valer se opõe à vida que se vê.

        Imagem às vezes difusa, confusa, que dança a dança dos véus, misteriosa, reclusa. Dançarina fortuita que se esconde atrás desses véus, artífice de mil facetas, que ora nos sensibiliza, nos mobiliza, nos encanta, ora nos desencanta, nos assusta, desliza e nos revitaliza.

        Imponderável bailarina, que nos surpreende, suspende, repreende, que dança os sonhos e a fantasia, que salta do amor ao ódio, que embala a vida e a morte. Percorre também os caminhos da luz, da sombra e do intangível, dos céus e do inferno, fazendo-nos dançar com deuses e demônios.

        Ela nos eleva, nos enleva e nos releva. Nos afina e desafia, nos rompe e interrompe, nos hipnotiza ou nos faz cônscios da realidade efêmera.

        Salta, ressalta. É graciosa, temerosa, irriquieta e impactante. Liga, desliga, religa, é complexa, convexa e côncava. Reduz e expande, constela, rodopia, circula, projeta, melindra, transcende, acende, apaga, se forma e se transforma.

        Mercurial, faz a alquimia da transformação e do sentido, buscando nos bastidores diversas coreografias, trazendo do arco-íris os mais diferentes matizes.

        De gestos secretos e inesperados, circula então pelos palcos de diferentes cenários, atuando os mais diversos personagens, projetando e mobilizando no público seus mais secretos temores e suas mais sublimes emoções. Ela se esgueira, maneira, desliza, conecta, desconecta, constrói e destrói. É capaz dos movimentos mais incríveis de junção e disjunção.

        Ensaia os movimentos às vezes em segredo, mas sempre tem o espelho como confidente. Tem o dom da relação com a divindade. Ora é a alma ingênua, que tudo ignora, ora é a alma sábia, que tudo revela. Ora é intensa, pretensa, ora é estática. Descansa feliz após grandes movimentos, mas vez por outra repousa infeliz tendo os pés machucados.

        Salta e de seus passos despreendem-se alegrias, medos, rancores, ansiedades, carências, inflações e depressões. É essa a dançarina terrível e fascinante que precisa de nossa parceria, pois se não dançarmos com ela o pas-de-deux ficaremos paralisados, esvaziados, ressequidos e desumanos. Ela pensa através da imaginação. Ela se inclina, reclina, declina, conforta e desconforta.

        Sem tempo e espaço e em moto circular, inspira, respira, transpira, põe, compõe, repõe, faz, desfaz, refaz, desloca, coloca, evoca, provoca.

        Mas a história do homem é uma história da busca de sua alma, de ser parceiro dessa bailarina, ao mesmo tempo profana e sagrada.

        O homem é em potencial sonho, imaginação e criatividade. A vida que não prioriza essa dançarina é materialista, burocrática, administrativa, analítica, opaca, gerencial, congruente, lógica e “racional”. É puro complexo do ego.

        A alma é o vento, a chuva, a neve, o ar, o fogo, a luz, a sombra. Não pode ser simplesmente emparedada, compactada, porque ela é complexa e multifacetada. Precisa ser tratada com amor, cuidado, delicadeza e dedicação.

        Como dizia Jung, “o amor é como Deus: ambos só se oferecem a seus serviçais mais corajosos” (Jung, 1999, v10 §232). E ainda: “o problema do amor faz parte dos grandes sofrimentos da humanidade e ninguém deveria envergonhar-se do fato de ter que pagar seu tributo a ele”. (Jung, 1998, v17 §219)

        Deveremos trabalhar e percorrer com respeito e devotamento nessa estrada da vida e caminhar fazendo alma, para sermos de fato cúmplices e não repressores dessa dançarina.

        Poderíamos ser revolucionários e libertários para poder formar uma sociedade livre, como deve ser a bailarina.

        E que ela possa dançar todas as danças sem preconceitos. Que possa ser Siva, Elfo, Coribante, Laka, Uzume, Terpsícone e muitos outros.

        Que possa dançar a dança dos deuses, a dança mimética, as danças de Gaia, de Siva, dos Dervixes, dos Orixás, a dança clássica, as danças folclóricas, o maracatu, o bumba-meu-boi, o frevo, o samba, a chula, o xote.

        Que nossa alma bailarina brasileira, em parte mutilada, possa dançar por nossa terra afora, no caminho da busca do Muiraquitã, que Macunaíma perseguiu, mas sem consciência, sem sacrifício.

        Que nós possamos dançar do Oiapoque ao Chuí, num movimento que nos devolva a identidade, que pelo desrespeito dos nossos colonizadores, ficou no inconsciente.

        Nossa bailarina, que tem jogo de cintura e é dengosa, graciosa, brejeira, curiosa, talentosa, criativa, bem humorada, intuitiva, deveria ser libertada para dançar em diversos palcos, passando por nossas diferenças culturais, nossa miséria e nosso sofrimento, buscando a ética e trazendo mudanças.

        Que ela saiba dançar por entre nossos mitos e folclore, falando de Iemanjá, de Iansã, do Negrinho do Pastoreio, do Lobisomem, do Boto, da Mula Sem Cabeça, do Saci, do Curupira, da Mãe D’Água, do Jurupari, do Boi Tatá.

        Que nós, como analistas, saibamos cuidar para que essa alma possa se apresentar com sua autonomia, ambivalência e diversidade. E que quando ela simplesmente dormir, possa ser despertada com o coração. Assim ela será encorajada a dançar através dos sonhos e da vida. E que ela apresente um ballet com gran finale: o do casamento de Eros e Psiquê.

        Bela alma bailarina, que possamos sempre ser seus partners, seu músicos, seus iluminadores, seu palco e sua platéia e tenhamos mais consciência da nossa realidade e nossas raízes, mergulhando sem vergonha na cultura do Brasil.

        Que como prima ballerina você possa dançar leve e solta pelo universo que te circunda, tocando as estrelas e os planetas, pisando nos prados, nas areias e nas águas, livre das sapatilhas.

        E que nós consigamos permitir sua dança de improviso cada vez mais liberta, quem sabe nua, e que você se solte nos campos da fantasia e da poesia, “pisando no chão com a ponta do pé, tocando o céu com a palma da mão. Ou, tocando o céu com a ponta do pé, pisando no chão com a palma da mão”.

 Referências Bibliográficas

 JUNG, C.G. 1999. Obras Completas v.10. Petrópolis, Editora Vozes.

________. 1998. Obras Completas v.17. Petrópolis, Editora Vozes.

PRANDI, R. 2002. Mitologia dos Orixás. São Paulo, Cia. das Letras.

A autora, Dulce Helena Rizzardo Briza é analista junguiana, membro da IAAP, da AJB, do IJUSP, e membro-fundadora do IPAC e do IJRP,. Autora do livro “A Mutilação da Alma Brasileira” e co-autora de “Puer e Senex- dinâmicas relacionais”.

Contato com a autora: www.dulcehelenabriza.com.br  / email: brizadhr@uol.com.br